Arranjos

24Jan12
Dizer o acaso – dizer a vida –, mas dizer.
Inventar os arranjos, dizer os rostos,
Fermentar os ossos do poema, revelá-los simples:

Toda a hipocondria – arranjo repleto geral,
Outro poema: cavalos quebrados –
E toda a ternura, a carne do gesto.

A cabeça da palavra: Herberto Helder
Qual uma península na dança.
A secura que se surripia ao azinhavre;
Uma cabeça de robustez: bisão
Ou outro número.
Toda a hipocondria
Do homem e toda a
Ternura do homem,
A boca da terra
Metida dentro
Dum receptáculo plástico, alto,
Um sismo de seio e umbigo lisos, plangentes –
Toda a miséria metida dentro
Duma prenda,
Com o leite e o esperma numismáticos, parados.
Toda a humanidade
No vazio da dança peninsular,
Nos flancos do temor e da cortesia,
Toda a humanidade
Metida dentro duma criança –
Enxovalhado metal de carne.

Arranjo cerrado: o poema humano, sanguíneo,
Toda a alegria que se pode usurpar à morte,
No quente dentro da pele.
Toda a alegria – pretensa, cegada, urgente: bóson de Higgs.

Arranjo médio: na ilha de Fårö, uma sílaba – um lobo.
A luz ejacula: outro poema: o fotograma: aposição: parataxe:
Dizer a morte sem nome. Toda a hipocondria
E toda a ternura. O poema está. Jamais será.


Ou Poema

03Jan12
Construir-te é uma escola,
Tu, nua em mim:
Carne em vidro.
Dou-te pesares, mas suaves –
Árvore diurética a que se queima levantada –
E o faço para rasgá-los
Somente.
Quero-te, ouro engendrado
Em útero de voz e vento,
E beber-te os gestos sem o corpo da troca.
Quero-te escrita, porque assim tu vives.
Alimentar o metal da fome,
Tu, nua em mim,
 
Não sei se mulher ou poesia
Ou ausência.
Dou-te remates – e o faço para que
Tu mesma os rasgues –, mas são palavras
Somente.
Dou-te seqüela, mas tu já te desnudaste.
 
Esta escola é um ossuário.

Hoje: Sim

13Dez11
Se dos teus seios uma rara fruta, um raro olho,
Eu, sem o influxo da vontade, como uma mãe,
Apenas preparo este poema, como se prepara
A ceia. Então, flanqueada, uma boca rompida.
Apenas preparo este poema, como se responde
A uma pergunta de criança, como se eu
Estivesse descrevendo o teu corpo.
 
Doer como um céu aberto no vermelho:
Não há fuga, porquanto fugir é também doer.
Tu te soergues e prossegues, não porquanto
Há fim, mas porquanto há. Então, flanqueado,
Este poema: como todos os outros,
Ele está vivo nos teus olhos, por sobre uma cifra,
Um livro de pedras, um chão onomástico,
 
No entanto este poema quer te dizer sem pressa,
Quer te ensinar a torcer e a destorcer as palavras,
Humildemente, como muitos já o intentaram.
Temer como uma cabeça de criança aberta:
Não há promessa, porquanto prometer é também
Temer. Tu insistes sem força. Este poema quer
Dizer-te nas tuas mãos: não te culpes. Da vida
 
Há só o que se vive, sem cristais de braços certos,
Sem rios em peitos fracos. Levantar diariamente
Para a morte, mas conhecendo-a única coisa:
É o que faz este poema, é o que ele quer dizer-te.
Se dos teus olhos a nicotina das horas, o corte
Na carne do motivo, eu, com os meus mantras
Repetidos, como uma criança eu beijo-te: hoje: sim.

Placenta

29Nov11
Trato de descobrir
Nos da tua mãe
Os teus olhos.
Sobressaltam-me
As palavras que se parecem
Ao teu nome –
Mas que, definitivamente,
Não o são, não o são –,
E colijo-as num dicionário:
Esta coisa.

A escaramuça não tarda. Aqui estais, tu e tua mãe,
Vós sois a mesma carne, a mesma teima –
A mesma teima, por isto eu mudo-vos.
Vossos ovários são esta coisa,
Não vós.  Cruel tauromaquia. Fim de um silêncio.

Amar-te – mais que isto –;
O corpo estiolado, a insistência.
Mas te escolhi, escolhi, pois, estar fraco.
Esta coisa fraca
Que escrevo.
Este dicionário,
Filho nosso,
Que agora não me admite.
Dizer-te é o mesmo que
Dizer o mênstruo, a bicicleta.
 
Tenho ainda pressa, entretanto já não me reconheço.
Não te reconheço. Tu ou tua mãe?
Dizer a tua cabeça sem boca – tu sequer falas –
É o mesmo que dizer o último ano, o luxo, a obra.
Negar-te, vingando-me, é fim como início. E sem mim.

I.

Perturbar com o meu corpo de paisagens surdas
O nome frio e novo da árvore que fora lavrada.
Hoje fez tremer de júbilo a minha voz
Um homem que dizia os números dele a uma mulher.
Hoje quero a minha voz dentro da chuva
E um doce matinal de penas e lixívia.
Não quero falar das bocas infensas e encardidas
E nem da terra aguardadora e hialina como um amor.
Hoje quero perturbar com o meu nome de paisagens
Surdas o corpo frio e novo da árvore que fora lavrada.
 
A cabeça vulgar e parda do lobo irrompendo da areia:
Hoje um homem que dizia os números dele a uma mulher fez nascer
Da teimosia e do suicídio um poema risonho ou uma criança antiga.
 

II.

Como um velame que saísse da voz,
Deram-me a geometria dos gestos:
A virgindade do trigo e a volúpia nos nós
Do pão – o aroma a pão dormindo nos restos
Do homem, nos braços lenhosos
Do homem (tinha este homem
Um nome de pedra e sal e forçoso
Ensinou-me a mudez). O forâmen
Brilhando seco na cabeça do lobo:
 
Até hoje me faltara paciência.
Até hoje.
 
Este poema demora uma vida,
E o rosto vincado
Na cabeça dele diz
Imobilizado:
Deixa que o vento ocupe o espaço urgente de palavra
Que rebenta dos teus passos esfaimados.
 
Dizer a uma mulher os meus números.
 
Até hoje eu escrevera um tronco apenas.
Até hoje.
Hoje um homem que dizia os números dele a uma mulher fez nascer
Da teimosia e do suicídio um poema risonho ou uma criança antiga.

Weekend

10Nov11
Minha mãe é pianista laureada;
Com o tarso copioso em que habito
Ela comove-te em cada um desses
Ossos recurvos que abrem
Teu peito. Assim, posso-te beijar
No astro negro que estria
O dorso das meninas todas
Aspergidas por sobre
A nudez angulosa das pedras, que
Arrojam-se qual o baixo-ventre
De uma maçã ou de um tigre,
Para erigir pressurosas estas cifras.
E estávamos trinchando nossos sonhos,
Meu pai, com a cabeça vaporosa e linda e
Dentária, indicava-nos uma barriga:
Acredita-me, tu que me tens – carne
E perfume – pegado aos teus seios,
Acredita-me! Uma lesma que se parecia
Ao paroxismo leve e branco da bruxa
Acesa nos teus olhos e zigomas,
Uma lesma, que só divisei porque o sol
Já em boa hora se ia envolto em areia e números,
Ela comeu-me a novidade fria dos olhos.
Assim, posso-te guiar por este vestíbulo
Infindo e carmesim, sem temer o que esteja
Escrito fundo na minha voz, que,
Em verdade, é a tua.

O Lobo

27Out11
Grachan Moncur III com a madeira da boca e dos dedos:
No sétimo dia
Que sucederá àquele
Em que ouvi primeira vez
O prelúdio de sangue e vidro
Ao primeiro ato de Tristão e Isolda
Tu deverás te sentar – soçobro e fumo –,
Com a nuca de lixívia e beijos antes de o lobo
Ao teto fazer subir tua palavra e teu hímen quente,
Entretanto na espuma dos teus joelhos a luz flanqueada
Livrar-te-á do mal com mil pássaros e serpentes aromáticas.
 
O cadáver azul de Lennie Tristano:
Taste the F
Rank
Sin
Atra,
Kiss the P
Ab
Loner
Uda.
 
Antes de o lobo perfazer a hora ululante como a lua, naturalmente,
O chão com um pé de ouro e números, sete, nove – parecem-te inabituais,
Mas não o são, em verdade –, resvalará por detrás dos teus olhos como
O animal que habita o carcinoma que há nu nos abraços úmidos com a pele
Desejosa e metálica e que fugazmente te diz com os poros, que em momentos
Como esses alcançam precisamente o tamanho de uma cabeça de búfalo,
Diz-te o animal que a vida não é senão um acaso.

Bárbara

10Out11
Acarinhar-te nos braços esta alvorada
Que é uma morte dentro no corpo,
No lenho dos dias tirados à esperança.
E estamos remotos.
 
Aceita esta gema, que é uma carne e um pedido
De amor e perdão fluvial. Aceita com o teu desvelo quente
E frágil de irmã.
Aceita, mulher, o cerne ferruginoso e branco
Deste número dissoluto e ocamente intentado que é o meu espinhaço.
Assim poderei compor os teus cabelos,
Beijar-te no íntimo dos passos;
Assim, e somente assim, eu te poderei amar
No maciço da cólera que há em cada um destes órgãos rígidos
Que guarnecem as nossas vozes.
 
Deves-me aleitar – como o faz o vidro com o unto.
Deves preparar a pedra de nossa partida.
 
Tuas lágrimas me servem para prolongar a acha,
Dar-lhe, por sobre o mármore das nossas mãos, o nome do corpo,
O som dúctil e alto do corpo.
 
Aceita a minha vida, mulher,
Que sem o teu conselho, não sou senão uma continuidade miúda
E estéril.
Dorme agitadamente e nua por sobre os meus olhos,
Por debaixo deste miocárdio viloso e vão que é meu e te pertence.
Assim recomeçaremos sem que haja termo,
Amaremo-nos no grito intestino das ruas;
Assim, e somente assim, refrearemos,
Seta e sangue no occipício notável dos astros, o suor negro
E a cifra estúrdia dos nossos pulsos.

Teus braços de ave brancos e a terra eriçada,
A noite obcônica, quase hierática, como uma carne,
Por sobre o vento e os ângulos dele,
A noite dentro no peixe,
Extorquir o brilhante do peso,
Esfalfar-se na violência de uma paixão
Qualquer, e então uma paz de animálculo.
Ouve, mulher, o que eu te beijo:
Uma criança e um sangue,
O cio nos olhos dos símios,
A maciez de um desassossego por sobre
Os liquens dos nossos nomes.
 
Esfalfar-se na violência de uma paixão
Qualquer:
Quero uma paz de animálculo,
O carinho da terra.
 
O trigo por debaixo das pálpebras,
O nó grosso da geografia negaceando;
O cio opalino do regresso.
 
E a prenhez da pedra.

 


I – Leite

Estava e não,
Treme luz de achas enfrentando
O cerne de inverno dos dedos,
Assim meu pai:
E eu com ódio no depois, amor no que carece.
Os olhos dele escaras,
O telúrico contentamento, e escuro, de encontrar-se
Noutro:
Pai.
A dança do sabre; uma cogitação,
Um coaxar – a mulher esconsa de cada dia.
Tempo mênstruo. Ruína e ruína.
 
Estava e não,
Espelho de sangue;
 
Mas eu sei que da vida
Não lograrei obter coisa outra que não a morte.
 
Um ovo oco, umbroso, tolhido como deveriam ser todos
Os projetos.

 

II – Sêmen

Era e não,
Um olho de peixe, o outro de gato
No miolo da truculência,
Toda a tristeza de mãe:
Uma canção de se encerrar as aves.
Os números úmeros meros,
O grito por detrás das narinas do rubi e do alcatrão
Virgens:
Sêmen.
O leite, a luz, um peixe; um êmbolo negro,
O ressaibo da ruína na uretra – o rincão vermelho na luz.
A morte é amena. Terra e terra.
 
Era e não,
Hímen de mãe;
 
Mas eu sei que do corte
Não lograrei obter coisa outra que não o nome.
 
Um útero avaro, lindamente, emético como deveriam ser todas
As cópulas.



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