Monólogo

30Mai09

Sentei-me à beira da cama. Não pensava em nada. Não conseguia. Apoderava-se da minha carcaça uma alvura irrestrita. E uma resignação. Não via motivos para levantar-me. Não via nada. Não havia nada para se ver. Não havia nada. Nem tempo.

Deitei-me. O tempo fez-se amostrado instantaneamente, no entanto de uma forma subjetiva. O tempo externo continuava inexistindo. Explodiu-me à cabeça um turbilhão amorfo de imagens e sons. Ocorreu-me que minha essência toda se havia descido aos pés quando do meu assento à beirada do leito. A verificação foi evidente: tornei a assentar-me. Novamente me veio a brancura. E a resignação. Tive certeza. Deitei-me outra vez. Ri-me.

Lembrei-me da garota. Esqueci-me de nosso encontro. Levantei-me então. Senti toda a minha consciência escorrer-se para os meus membros inferiores e depois esvair-se pelos meus calcanhares, ganhando o chão, em poças. Percebi-me pisando-as. Percebi-me parte de um tropel, como que eu fosse não apenas uma, mas várias existências, rumando ao banheiro.  A partir daí não havia constituição de memória. A sensação de vazio quando da minha entrada no banho é que me fez constatar que o que era vivido era imediatamente apagado. E banhar era como deitar: esclarecedor.

Ouvi a porta. Constituiu-se um tempo externo então. Era ela. Saí pingando. Dessa vez água, porém. Era engraçado o efeito que surtia em mim a presença de outro alguém. Apoderava-se da minha carcaça uma personalidade restrita. Ela bateu novamente. Eu respondi então e logo em seguida fui encontrá-la.

- Estava no banho? – ela perguntou-me após o beijo.

- É o que parece.

- Ríspido.

- Não…

- Sirva-me de vinho.

As pessoas têm uma tendência nata de mal interpretar outrem dando o pior dos sentidos ao que foi dito. Eu era vítima constante disso.

Enchi dois cálices de vinho e voltei a ela:

- Aqui está. – eu disse entregando-lhe a bebida.

- Seco.

- Você gosta.

- Eu quis ser ambígua.

- Eu também.

Ela adorava que não lhe dessem atenção, apesar de se fingir ofendida. E ser ambígua também.

- Preciso me sentar. E você? – eu convidei.

- Sim.

A sensação de peso nos meus pés era atordoante. E engraçada. Acabei por deitar-me. Ela igualmente.

- Conheci uma garota no ônibus.

- Conheceu? – ela desconfiou.

- Sim. Na verdade não.

- Como?

- Algo nela me chamou a atenção.

- O que exatamente?

- Uma independência. Auto-suficiência eu diria. Autismo talvez.

- Algo patológico?

- Não consigo julgar.

- Vocês conversaram?

- Não muito.

- Algo mais? – ela desconfiou novamente.

- Não.

Emudecemos por um período breve.

- Não me convence que somente isso tenha constituído pauta para um assunto.

- O que quer dizer?

- Quiçá tenha algo mais.

Não havia. Talvez até sim, mas não da maneira como ela pensara. Eu poderia replicar. Deveria. Mas preferi não. Seguiu-se outro silêncio. Agora não tão breve. Era quase noite e isso me era deprimente. Vinha-me um afã à garganta, eu queria falar, quem sabe escrever sobre o anoitecer, mas algo me impedia. Talvez o labor, o fato de se dedicar, despender algum tempo moldando e formalizando meu imaginário em escrita me era nauseante e isso também me incitava a alguma manifestação de ordem comunicativa. Era-me necessário extravasar sobre aquela falta de vontade de extravasar. Ela rompeu com a nossa mudez então. Usei disso para fazer-me interrompido. Como pretexto para afastar aquela inquietação.

- Você não se vai defender? – ela indagou.

- Não.

Ela criara uma espécie de julgamento direcionado pelos valores inerentes a ela mesma, tomando um fato fictício como elemento a ser julgado. Está certo que a minha negativa não colaborou muito com a elucidação do que realmente havia ocorrido. Deu-se outro momento silente, menos tenso que os outros. Tornara-se indiferente. Sem mais, ela levantou-se da cama e partiu, sem despedir-se ou olhar pra trás. Algo não estava certo ali, eu pensava. Eu me afeiçoara, de certo modo, a ela, apesar do nosso relacionamento nada usual. Pensei em intervir na ida dela. Sabia que não haveria volta. No entanto permaneci deitado. As imaginações fluindo livres pelo meu corpo todo. Havia ainda aquele desassossego quanto à carência de iniciativa.

Meu âmago ia dando à luz certa espécie de fome. Meu amigo. Era como se algo dentro de mim, que não parte minha, estivesse a se movimentar. Um rebento talvez. E se ia a manifestar num crescendo hipnotizante. Era uma fome, tive certeza. Algo sequioso de consumo. Eu não sabia com o que saciar aquele apetite. O imaginário ainda percorria a minha carcaça toda. A urgência de alimento se fazia material, como que outra pessoa interna ao meu corpo estivesse faminta. E dado que eu não ideava como satisfazer esse desejo, ele me ia devorando numa antropofagia de dentro pra fora. Eu desesperava-me. Sentia uma dor lancinante. E então me ocorreu a solução. Desnudei-me. Sentei-me à beira da cama. Meus pensamentos se iam canalizando para os membros inferiores. Fiquei de pé. Com as unhas rasguei-me as dobradiças das pernas e com as mãos em concha recolhi todo o líquido que escorria: uma mistura de sangue e alma. Pus-me a bebê-lo. A fome se acabou de imediato. Eu continuava em pé. Aquela deficiência de energia se fez prontidão. Escrevi nas paredes do quarto com a mesma tinta rubra que usara para satisfazer-me. Escrevi até a completa exaustão do meu ser, das paredes e da tinta.

Do circuito de pouca consciência que me havia restado ouvi a porta. Constituiu-se uma fome externa. Era ela. Rumei pingando em direção ao reencontro, dessa vez sangue, porém. Era engraçado o efeito que surtia em mim a presença de outro alguém. Resolvi não atender ao chamado. Preparei-me um pão com mel ouvindo-a invocar minha presença. Fiquei feliz de constatar que havia tido uma volta. Deitei-me ao leito. Dormi.


Quando da meninice, ele via, de olhadelas entrecortadas de pejo e medo, por detrás das saias da mãe, somente sapatos. Não se arriscava às canelas. Não que nunca o tivesse feito, mas quando o fazia, era acometido de uma tremura tão enérgica que mal conseguia andar. Pegava-se das saias da mãe quase as rasgando. Era a medicina.

Foi-se crescendo, arriscando-se, sempre de olhadelas bem rápidas e foi-se habituando. Já olhava canelas. Joelhos. Conhecia as pessoas assim. Aí se descobriu. Pôs-se nu certa vez e olhou-se até onde as vistas permitiam, memorizou cada parte de si. Tocou-se. Tocou-se no rosto, primeiro atônito e pressuroso, depois afoito e lento. Encantou-se. Correu-se para o espelho. Evitava-o desde quando se lembrava. Derrapou frente ao objeto. Fitava, disfarçando, o peito refletido. Era um espelho grande, pendurado à parede do quarto da mãe, redondo e de moldura de madeira trabalhada à mão. Subia os olhos baixando-os logo em seguida. Avistou o pescoço. Via-o brotando donde normalmente abotoava-se a gola da camisa. Parecia-lhe despojado, bem solto, quase mole. Então o rapaz subiu, de mais uma fitada, o olhar, mas não o desceu. Demorou-se ao queixo. Como era bem feito o seu queixo! Já lhe nasciam alguns ralos fios de barba. Tocou-os. Fazia-se necessidade raspá-los. Correu alcançar a lâmina e a espuma do pai. Correu voltar para defronte o espelho. Hauriu bem profundo todo o ar que lhe cabia ao peito e encarou-se nos olhos. Como eram belos, de um verde único, nunca dantes visto em sapato ou canela de espécie alguma. Ficou ali, o belo queixo estirado, pendendo, e os belos olhos feitos dois rombos verdes na cara. Esqueceu-se da barba.

Daí pra diante o tempo fez-se zombaria e a mocidade, toda ela, desabrochou nele de súbito, como estivesse sendo guardada durante os anos que se esvaiam zunindo, como o sujeito tivesse envelhecido de idades, mas não de aparências, e num dado instante, vigorosamente, fosse feito rapaz. Sobrava-lhe ainda um restolho da timidez infante, coisa que ele tratou de findar impondo a si mesmo encarar nos olhos qualquer um com quem topasse. Acabou fazendo gosto disso. Depois se envaideceu. Punha-se bastante confiante num colóquio, observando bem o interlocutor, olhando-lhe nos olhos vez em quando. A barba crescia-lhe ao rosto conferindo certo garbo, ressaltando os olhos verdes. Cumprimentava as moçoilas da vizinhança curvando-se exageradamente e olhando-as nos olhos em seguida. Via-as enrubescerem. Sentia-se bonito.

Acordava bem cedo, o sol espreguiçando os primeiros raios, e já se ia para o espelho. Penteava os cabelos negros, lavava o rosto e enxugava-o depois com bastante zelo, redobrava a atenção com a barba, também negra. Olhava-se ao espelho novamente antes de vestir o paletó por cima da camiseta de dormir e trocar a calça. Repetia esse processo religiosamente, todos os dias. Ia à padaria, comprava os três pães franceses de sempre e voltava a casa. Encontrava o pai já de pé, esperando-o. Desjejuavam juntos e de pouca conversa. O pai saía e ele voltava ao espelho. Despia-se. Admirava-se. Ia banhar-se então. Demorava-se: pipocavam-lhe milhões de imagens à cabeça, imagens que se iam fazendo turbilhões indistintos de cor e movimento, que o punham em transe, de molho à banheira. E ele se ia dissolvendo ali, as cores saindo pelos orifícios da cara e do corpo em abruptas torrentes e se misturando à água. Depois se fazia uma calmaria. Não tardava, todo aquele líquido condensado revoltava-se em fios espessos e materializava-se em rapaz, cada pausa e revolta como condutores de uma orquestra invisível. Ele voltava a si, sequioso, como a banheira. Sequioso de manifestar-se. Vinha-lhe aí um embaralhado de palavras que precisava ser organizado, disposto de modo a relatar o que havia visto. Vinha também o berro da mãe, noticiando o atraso. Rapidamente ele aprontava-se e saía à rua rumo ao colégio, todo o ideário fugindo-lhe. Certa vez resolveu então anotar as memórias em um dos cadernos escolares: Caminhava escrevendo, vez em quando tropeçando aqui e ali, topando com obstáculos. Nunca havia escrito. Não daquela forma, tão subjetiva, tão introspectiva, tampouco escrevera caminhando. Aderiu muito contente à prática. Não deveria deixar escapar nenhuma imaginação.

Numa dessas caminhadas, certo acontecido pôs-lhe apreensivo: ele escrevia, como sempre, sobre as jornadas que lhe propiciavam os banhos matinais, já não tropeçava tanto, dado que quando em quando entremetia uma olhadela ao caminho. Isso lhe lembrava a infância não tão distante, as saias da mãe. Entre uma mirada e outra avistou certa silhueta feminina, que já de longe esbanjava graça. Parou com as lapisadas. Aproximou-se. Iria encarar-lhe nos olhos. Não conseguiu, pois. Isso lhe fez pensar que voltara então à criancice. O que acontecia? Tentou novamente, agora com a mocetona lhe sorrindo, bem de perto. E não é que a velha tremura também voltara? Diante do embaraço, logo ele abriu do caderno e enfiou-se ali no meio fingindo que lia. Distanciou-se. O que acontecera? Decidiu-se por não ir às aulas naquela manhã. Não poderia voltar a casa, sua mãe de certo o castigaria por prevaricar com as obrigações escolares. Caminhou então, sem rumo, durante o tempo que julgou ser o bastante. Deveria estar longe, da escola e de casa. Estacou aí. O que faria? Olhou ao redor. Viu um café. Dirigiu-se até lá. Não tinha dinheiro algum, ficaria ali matando o tempo, escrevendo talvez. Adentrou o estabelecimento. Penumbra. Todos olharam. Ele se caminhou até uma mesa afastada, acanhado, e sentou-se de cadernos ao colo. Logo uma garçonete veio perguntando-lhe, com certa rabugem, o que seria. Não seria. Então ela disse que não se podia permanecer ali sem consumir.

- Está certo. – ele disse levantando-se.

- Não está certo. Trago-te um café por conta da casa. – disse ela, de rabugenta à cordial.

- Está certo!

- Sim, agora sim.

Ele sentiu-se bem. Todos o olhavam de fumaças compulsivas às ventas, o braseiro dos cigarros conferindo certa iluminação ao ambiente. Todos mais velhos, alguns já grisalhos. Ele depositou os cadernos em cima da mesa então. Todos o olhavam. Ele retribuiu. Encarou cada um nos olhos. O que acontecera horas antes? O que havia de errado com a mocetona? E que belas formas arredondadas ela possuía! Inspiravam-lhe! Decidiu-se por escrever então. Já não o olhavam. Fumavam compulsivamente ainda. O café chegara também fumegante.

- Aqui está! – disse a garçonete sorrindo por entre o bafo que subia da xícara

- Agradecido!

Seguiu-se um momento de silêncio. A garçonete ainda sorria com o café na bandeja, absorta. Pareceu dar-se por si então, daí depositou à mesa do rapaz um livro e em cima desse o café e saiu sem dizer nada. Então o rapaz rapidamente retirou a xícara de cima do livro, trouxe esse último à altura dos olhos e examinou-o atentamente, cheirou-o, tocou-o, cada parte dele, mas sem abri-lo. Não havia nada escrito na capa, nem na contra capa, ambas duras, de couro. Decidiu-se por abri-lo: nada escrito em seu interior também. Folheou-o: nada. Lembrou-se do café e apanhou a xícara trazendo-a até a boca e molhando o beiço superior superficialmente testou a temperatura. Já estava frio. Melhor assim. Nada muito quente o agradava. Tomou de um gole só o café. Lembrou-se das horas. Pensou em perguntar a alguém, mas logo avistou o grande relógio de pêndulo perto do balcão. Já era hora de partir. Apanhou os cadernos então, e o livro recém ganhado. Rumou à porta. Ninguém o encarou dessa vez. Procurou pela garçonete, porém não obteve sucesso. Não importava, ele planejava voltar ali em breve, daí então a agradeceria, a garçonete, pelo livro em branco.

Acordou na manhã seguinte com a mocetona aos pensamentos. A sensação era de tê-la possuído em seus sonhos. Vacilou um pouco antes de levantar-se. Dirigiu-se ao espelho como de costume. Aos bocejos penteou a cabeleira negra. Estranhou o silêncio. Não era o mesmo silêncio de todas as manhãs, o silêncio ao qual ele estava acostumado. Encaminhou-se ao quarto dos pais sem lavar o rosto. Não havia ninguém, a cama como que feita para impressionar, de tão arrumada. Não havia cheiro ou calor ou até mesmo resquício de algum dos dois, como que nunca ninguém houvesse pisado aquele quarto. O rapaz correu então ao quarto que era seu e trocou de calça rapidamente, de modo que saiu à rua ainda abotoando-a. Não sabia o que fazer. Não sabia, tampouco, por que estava à rua. Não sabia onde estavam os pais. Sentou-se à sarjeta então e pôs-se a prantear, mas também sem saber o motivo. Sentiu que ninguém poderia ouvi-lo. Gritou. Somente o vento brando fazia-se ouvinte. Gritou novamente, desta vez já sem nenhuma lágrima aos olhos. Levantou-se. Mirou o muro da casa onde findava a rua estreita em que morava. Viu surgir um vulto. Uma pessoa. Movia-se graciosamente. Aproximava-se. Não lhe parecia ser coisa concreta. Não sentiu medo, porém. Fechou os olhos. Abriu-os após respirar profundo. Era ela. Reconheceu aquela silhueta feminina de imediato. Fechou os olhos novamente. Sentiu o cheiro do que lhe pareceu café, erva-doce e suor. Abriu apenas um olho. Teve certeza. Sentiu o chão escapar-lhe aos pés. Fechou o olho que tinha aberto.

Acordou. Pensava na mocetona. A sensação era de tê-la possuído. Era noite. Lembrou do que ocorrera pela manhã. Deu-se conta de que não sabia onde estava. Percebeu-se desnudo. Alguém bocejava às suas costas. Era uma cama de casal. Amedrontou-se. O cheiro de café, erva-doce e suor impregnava o ambiente. Era ela. Virou-se então. Pela primeira vez encarou-a nos olhos e era como se já o tivesse feito milhares de vezes. Sentia a genitália sensível. Teria sido sua primeira noite com uma dama?

- Sim. – a mocetona disse, como que lhe respondendo o pensamento.

- Não. – o rapaz replicou.

Ela levantou-se, desnuda, e dirigiu-se à cozinha, que não era separada, por parede, do quarto onde estava a cama de casal. Ele a seguiu. Como era bela! Sentiu o desejo de possuí-la por cima da mesa da cozinha e o fez. Ficou surdo. Estava cansado, como que tivesse passado a vida toda procurando por ela e de repente a mesma tivesse se feito visível. Ali estava ela, imponente, mas transparecendo ingenuidade e desconfiança a cada olhar que entremeava, disfarçando impetuosa, ao redor. Sentiu-se demasiadamente satisfeito. Deitou-se. Certificou-se de que o local lhe oferecia um bom apoio aos braços e ao rifle, que carregou como se estivesse introduzindo as balas em outro braço que lhe havia brotado. Ficou cego. Como faria mira? Desesperou-se. Sentiu que a deixaria escapar. Respirou profundo. Sentiu o cheiro da caça, do suor nervoso que lhe empapava os pêlos. Excitou-se. A visão já não lhe importava. Tranqüilizou-se. Puxou o gatilho. Perdeu os sentidos restantes. Recobrou-os após um longo tempo. Estivera em alguma espécie de limbo. A sensação era de ter vivido uma vida inteira. Não se lembrava, porém, de nada. A mocetona lhe acariciava o peito. Agora já lhe era sabido os nomes dela. Adormeceu então.

Puseram-se de pé como se não tivessem dormido. Ainda estavam nus, o rapaz e a mocetona, e assim permaneceram. Desjejuaram. Permaneceram sentados à mesa. O tempo como se estivesse parado. Ouviram alguém à porta. Vestiram-se, mas era como se permanecessem despidos. Atenderam ao chamado:

- Bom dia! – a mulher do lado de fora desejou.

Não houve resposta. A mocetona abriu a porta. O rapaz reconhecera a mulher que foi logo se encaminhando à cozinha.

- Faço-lhe um café? – a mulher perguntou.

- Fala comigo?

- E com quem mais poderia?

- Está certo… – o rapaz estranhou.

- Sim, agora sim.

Houve silêncio durante todo o período em que a garçonete preparava o café. Ele havia se sentado à mesa novamente. A mocetona lhe beijava as orelhas.

- Aqui está! – disse a garçonete segurando uma xícara negra repousada sobre um pires branco.

- Agradecido!

Ela passou-lhe a xícara diretamente às mãos e saiu pela porta por onde havia entrado, a única na casa a propósito. O café estava quente. O rapaz deixou-o esfriando sobre a mesa e pôs-se a olhar a casa. Parecera-lhe maior. Eram dois cômodos afinal: o quarto de dormir emendado à cozinha e o banheiro. Olhou a cama de casal: por sobre ela repousavam o livro de capa dura de couro que havia ganhado da garçonete e uma pena. Voltou-se ao café, assoprou-o, pegou da xícara pela asa e levantou-se. Foi à cama. Assoprou novamente o café e deu um gole. Cuspiu. O lençol branco tingiu-se de vários pontos negro-azulados.

- Escreva – disse-lhe a mocetona.

- Sobre o que?

- Escreva, apenas.

- Está certo.

- Não mais.

- O que há?

- O errado – ela respondeu deitando-se sobre a mesa.

- Não entendo…

- Escreva, não entenda. Beba a tinta.

- Não posso…

- Não diga!

- Calo? – ele disse com a voz trêmula.

- Escreva! – ela disse despindo-se.

- Onde está a pena?

- Você é um pássaro.

- E o livro em branco?

- Eu sou.


Desato o ponto, desponto um fato:

Cismo. Engendro o que há de vir,

Vou sóbrio e sobre o cimo, pondero o que advirá.

Desabo por um momento, desato em resignação.

Dá-se o cisma. Valho-me do ensejo

Pelo desejo do ócio.

Não posso. Reergo-me indócil,

Recomeço o processo:

Reflito-me ao espelho. Meu reflexo

Desvencilha-se afoito.

Desacato-o opondo-me ao ato,

Encilho-o, cada raio luminoso que o compõe,

Num plexo. Encaro-o nos olhos.

Ele revida perplexo. Não é meu.

Deixo-o então.

Aflito, emparelho-me ao espelho:

Reverbero-me em transparência.

Desponto na senda agora,

Vôo sóbrio, compondo-a.


Outro Conto

05Dez08

- Não! Por deus, não! – ela dizia. As mãos vermelhas do sangue dele.

Logo à frente, a viatura, que há pouco desenvolvia uma perseguição, encontrava-se impedindo a pista e, de rodas para cima, o carro do fugitivo vazava combustível, fazendo-a exasperar-se. Na via contrária, o tráfego fluía ímpar.

- Olhe para mim! Você não pode me deixar! Não dessa maneira. Escute-me: você vai ficar bem, prometo-lhe.

Ele a ouvia, porém sem responder-lhe, vertendo-se em sangue. Os policiais se aproximavam.

- Rápido com isso! – ela berrava, sufocando com a saliva espessa e as lágrimas – Ajudem-me! Ele foi baleado…

- Há uma ambulância a caminho, moça…

Era um prédio antigo, salmão e descascado. Um hotel dos mais baratos. Vantagem é que ficava no centro, e o senhor do apartamento duzentos e vinte e dois fazia questão disso.

Anoitecia e ele abotoava o último botão do paletó pra alcançar as escadas e depois a rua, falseando em sua bengala de marfim, como sempre fazia. Era um fim de tarde daqueles de temperatura amena e poucas nuvens ao céu e o senhor o apreciava fechando os olhos vez em quando: gostava desses e sentia-se reciprocamente retribuído quando o vento brando acariciava-lhe os cabelos alvos e ralos, ao contrário de quando o dia findava quente e sem nuvens; esses fins de tarde pareciam odiá-lo. Pelos chuvosos, há muito ele não caminhava, mas se lembrava de quando adolescente. Caminhar pelo anoitecer, todos os dias, punha-o nostálgico. Lembrava do filho que não via há tempos. Desviava as memórias. Sentia, dos canteiros, os doces aromas das raras flores e a garoa dos aspersores. O bar dos cafés diários já se fazia visível e o senhor sentia um vigor juvenil aflorando-lhe aos membros. Resolveu ousar um bocado: o fim de tarde se fazia propício a ousadias. Com os olhos semicerrados desapoiou-se da bengala e andou como se não precisasse dela. Sentiu um tremor leve e o ignorou. A calçada estava molhada dos aspersores e ele percebera, porém também ignorou. Desmoronou. Lá adiante se viam nuvens aproximando-se rápidas e que mais tarde se precipitariam em chuva.

- Penso em meu pai – ele disse, quebrando o silêncio.

- Você nunca me disse muito sobre ele.

- Prefiro assim.

- Não me agrada muito.

- O que?

- Essa lacuna. Não sei das tuas raízes. Isso me confunde quando eu tento estabelecer parâmetros.

- Você é complicada demais.

- Você.

- Entenda-me.

- É só o que eu faço.

- Ele morreu.

Ela engoliu em seco.

Chovia. O senhor do duzentos e vinte e dois corria pelos descampados da juventude, nu. Algo lhe adentrava as veias do braço causando incômodo. Ele acordou então. Passou os olhos ao redor levantando somente o pescoço. Chovia. Gotejavam, o soro do companheiro de quarto e os pingos lá fora, sincronizados. Uma camisola azul e aberta na parte de trás o vestia e o vento que entrava reprimido pela fenda mínima da janela quase totalmente fechada refrescava as partes internas de suas pernas. A esquerda pendia engessada de um aparato preso ao teto. Alguém adentrava o quarto.

- Há algum parente próximo com qual poderíamos entrar em contato? – perguntou a enfermeira, sem delongas.

- Não. Bem, sim. Mas é melhor não.

- Sim ou não?

- Sim e não. – o senhor respondeu coçando os olhos – O que foi que aconteceu?

- O senhor escorregou, seus ossos estão fracos… Quem é a pessoa?

- Meu filho.

- Posso contatá-lo?

- Na verdade não, mas faça.

- Está certo. – A enfermeira disse acendendo um cigarro.

Os dois moravam juntos há algum tempo. Não eram de muita conversa. Não precisavam. Ela saía cedo, voltava tarde. Ele não saía. Fazia de casa o trabalho. Acordava primeiro e a acordava. Ficava a olhá-la acordando, lambia-a nos olhos, beijava-a na boca, sorriam. Ela se levantava e se banhava. Ele preparava o café, servia-a, despachava-a e voltava a dormir depois. Acordava de novo, tarde, preparava o almoço, cuidava da casa e do trabalho de revisor, se porventura tivesse algum. Ela chegava. Ele não falava. Não falava, mas vinha bem falante nesses últimos tempos e encarquilhando as sobrancelhas quando o fazia. Falava do jornal, do trabalho dela, do barulho dos carros à tarde, da violeta sequiosa na sacada. Ela estranhava. Ele falava. Daí então silenciava, como que se dando conta do falatório, estranho. Voltava a falar, quebrava o silêncio num tom mais baixo e sério. Aí falava do pai. Ela estranhava: do tempo que estavam juntos ele pouco falara do pai.

- Como foi que se deu a morte? – ela perguntou.

- Como se dá.

- Sou intrusiva quando pergunto?

- Imagina.

- Não?

- Claro que não.

- Por que você não me diz?

- Prefiro assim.

- Você nunca diz.

- Não.

- Prefiro o sim. – ela disse; as mãos soltando o cabelo preso de trabalhar, o telefone tocando.

- Você atende?

- Não.

- Insolente! – ele a chamou, rindo e levantando-se para alcançar o telefone. – Pois não? – ele atendeu – Como é?

Ela o via enrubescer, apertar os olhos, menear o pescoço, despentear os cabelos. Preocupava-se, não se agüentava. Ele desligou. Ela perguntou, aflita:

- O que se passa?

- Leva-me ao hospital.

- Por quê?

- Só me leva.

Ele corria de mãos dadas com o pai, atrás da pipa. Choramingava a perda. Sempre atribuíra valores demasiados sentimentais às coisas sem valor. Inda hoje guardava as conchas da primeira ida à praia. A pipa se ia. O pai, cada vez mais diminuía o ritmo. Ele, aumentava o pranto. Pararam finalmente: ele de muito pranto, o pai de muito abraço, fazendo-lhe cócegas até arrancar-lhe um sorriso. Ele chorava mudo no banco do carona, o pai também, no hospital.

Ela dirigia apressada, olhando, vez em quando, pra ele. Não se atrevia a perguntar. Sabia que se o fizesse ele responderia, mas sabia também que não se satisfaria com a resposta. Iam-se. Ela, cada vez mais aumentava a preocupação, ele, aumentava o pranto. Ela se resolveu por perguntar finalmente, no entanto interrompeu-se antes de terminar, quando de um carro que seguido de uma viatura policial passaram zunindo por eles, aí, ao invés de terminar a pergunta, maldisse uns impropérios. Ele se riu dela. Ela respirou profundo, aliviada, rindo também. Deram-se conta de que a viatura lá na frente parara e pararam também, observando, como que temessem algo. O motorista do outro carro, que havia capotado, saíra do mesmo, ileso, de pistola na mão e ameaçara os polícias. Esses, por suas vezes, desceram da viatura rendidos. O bandido correra então. Vinha correndo na direção dos dois, que se exasperaram: ela de mordidas aos beiços, ele enxugando as lágrimas dos olhos. Os polícias dispararam contra o bandido, sem êxito, porém não sem um alvo atingido. Ele, de dentro do carro, desfalecera.

- Não! Por deus, não! – ela dizia. As mãos vermelhas do sangue dele.


Novas Cores

20Set08

Vem o impulso. Procuro o que fazer pra não ter que decidir parado. Decido: eu vou. Apronto-me de um pulo por ter me atrasado enquanto indeciso. Saio à rua e me vêm os ventos do inesperado à cara. Penso em mim. Desconheço-me. Gosto disso. Gosto de perceber-me outro. Gosto das novas cores e da falta de cor, do ônibus ruidoso e do atraso.

Atraso.

Hoje entendo que existir é atemporal.

A existência é baseada em escolhas.

Não a vi. A saudade aperta. Há alguns minutos eu maldiria a rotina, como de fato o fiz e refaço agora, corrigindo-me: prefiro adequar-me. Ela me ensinou isso. A saudade aperta a cada pensamento, nuvem, carro, abrir de sinaleiro. Vejo-a em tudo, em todos. Havia combinado de encontrar-me com ela no ônibus e atrasei-me. Mulher da minha vida…

A viagem é imperceptível. Alcanço a rua novamente.

Hoje entendo que alcançar é existir.

Baseio-me em meus alcances, e assim chego. Atrasado, porém.

Encontro-me com os meus. Meus novos. Os que pensei jamais poder chamar de meus. O orgulho nos trai.

Passo a tarde; passo-a como havia planejado antes de indispor-me.

Penso nos meus. Meus novos. Os que agora posso chamar de amigos e que jamais pensei poder fazê-lo. Rio-me. Como pudera ser tão frio? Faz frio. Sinto-o mais intenso do que ele de fato é. Percebo-me outro. Gosto das novas cores.

Espero o ônibus de volta, ladeado pelos meus novos amigos. Vem o impulso. Procuro andar pra não ter que decidir parado. Despeço-me. Decido: eu vou.

Tenho pressa, mas desconheço os motivos. Penso nela. Penso neles. Penso nas mudanças e na forma como elas se dão. Sinto-me bem. Sinto-me.

Encontro-me com os meus. Meus antigos. Os que pensei que já não poderia mais chama-los de meus. O orgulho nos trai.

Começo a noite; começo-a bem, falando de minhas origens, que às vezes acabam se perdendo em face de tantas deviações. Pergunto-me quem sou. Quem fui.

Ouço dizerem que pensaram em mim. Sou querido. Não lido muito bem com a querência. Subestimo-me.

Passam-se as horas e eu as passo com os meus. Os ainda meus amigos. Minha ligação comigo mesmo. Entendo os impulsos. Sinto-me satisfeito por tê-los obedecido. Sinto-me. Sinto muito por não poder ficar mais, pois já é dada a hora de partir e me despeço. Penso que só os verei novamente, os meus antigos amigos, em ocasião igualmente aleatória. Penso em pedir que não me esqueçam. Só penso, não peço e me despeço novamente.

Saio à rua e me vêm os ventos do inesperado, decifrados, à cara. Rio-me.

Ando pela noite e sou cada nuvem, cada carro, cada abrir de sinaleiro. Respiro, ou melhor, ofego à pressa e agora sei dos motivos: já é tarde. Penso nela, preciso dela. É bárbara a necessidade de tê-la comigo a todo instante, a mulher da minha vida. Penso no passado próximo, nos mais próximos, nos próximos instantes e na iminência da distância e me pego absorto pra voltar às ruas de súbito e ao encontro de mais um dos antigos. Antigos amigos. Estacamos então: fazia tanto tempo que não nos víamos. Abraçamo-nos. A conversa fluiu como quando nos víamos todos os dias, mais espontânea até, eu diria. Desviamos nossas rotas para que o encontro durasse mais. Os ventos riem. É impossível decifra-los. A pretensão é traiçoeira. Despedimo-nos então, à hora e à esquina de tomarmos, cada um, um caminho.

Vou-me. Penso na vida. Vivo.


Em contra.

24Jul08

Ela tinha vinte. Ele, vinte a mais que ela.

Ele, como supunha a idade, era como pai dela. Ela, apesar da idade, como mãe dele.

Havia sexo. Era sempre bom. Ele era estéril. Ela aficionada por crianças. Já haviam pensado em adoção. As coisas iam mal.

Ela acordava cedo, sempre. Passava o café, torrava as torradas e levava na cama. Ele agradecia com um beijo, às vezes com mais. Ela então se vestia, e saía. Ele voltava a dormir. Nunca acordava cedo, só quando precisava.

Ela voltava, sempre sem o emprego que havia ido procurar. Ele, nesse ínterim, havia acordado e lavado a louça da janta do dia anterior e fumado três cigarros, um em cada cômodo do apartamento. Ela começava o almoço lhe contando de como tudo é só questão de ponto de vista, ele terminava, lhe dizendo que não. Comiam se olhando, silentes. Fartavam-se.

Havia sexo. Era sempre bom. Depois se banhavam e passavam o dia na cama, de planos e cigarros. Ela adormecia. Ele ia pra sala. Dormia com o televisor. Chegava à cama sem saber como. Dormia com ela.

- Que é que você ta fazendo? – perguntou ela, engrolando a voz, de susto e sono.

- Servindo-te o café na cama, oras…

- Mas…

- É, fica na cama hoje. Descanse…

- Descansar do que?

- Sei lá, tire o dia pra você. Faça nada. Tudo…

- Sem você?

- Sem mim.

- Mas…

- Espera-me de almoço pronto e calcinha, que eu volto com fome.

- Bobo!

- Já me vou, então. Até logo, amo você. – ele disse, beijando-a.

- Amo você também. Sorte na empreitada…

Ela. Tinha vinte minutos que havia começado a chorar. Afogava-se com os soluços e toda ela vertida em lágrimas. O telejornal noticiava um ônibus caído de um viaduto.


Encontro.

03Jul08

Ninguém sabia ao certo o nome dele. Arriscavam pelo canto da boca. O que arriscavam haviam ouvido de outros passageiros que sabiam ou o achavam e que desciam do ônibus e agradeciam-no. E ele por sua vez, usava o crachá ás avessas ou não usava. Não gostava de pessoas, dizia. Dizia pouco, mas quando o fazia era pra justificar a marra. A amargura não lhe transparecia ao rosto terno. Ele o escondia por trás da barba não muito passada do ponto por exigência do patrão. As pálpebras lhe caiam aos olhos e como fator atenuante da expressão pesada que amarrava todos os dias, antes de sair de casa pra trabalhar. Não gostava de pessoas, pensava; daí franzia o cenho e os beiços. Estava naquela por falta de opção. E tédio era coisa que lhe matava, então engolia as pessoas, que a propósito achavam-lhe a cara demasiada engraçada.

- Bom dia! – diziam os passageiros. Ele escarnecia, e lhe entendiam um sorriso. Ele não gostava, quase morria de engasgado: vinham-lhe disparates mil à boca. Não dizia. Não gostava de pessoas, não lhes dizia. Nem disparates, nem bom dia.

E assim ia. Dava-se bem com o ônibus. Volante e câmbio e pedais eram como membros seus. Retrovisores, pares extras de olhos. Atiravam-se contra as ruas e àqueles que transitavam por elas. Não paravam a atrasados.

E assim ia. Veloz. Os passageiros se segurando, como marionetes penduradas, não reclamavam. E então, ele freava, bruscamente, e todos os passageiros iam para frente, como uma massa mole e malcheirosa: não reclamavam. Não se ouvia um único muxoxo de desaprovação. Ele entrava nas curvas sem diminuir a velocidade, ziguezagueava, furava sinais vermelhos e não obtinha sequer um suspiro de desagrado. Deprimia-se.

E assim ia, sem muita vontade. Mas logo se estimulava, pensando que não lhe reclamavam por medo. Pensava também que poderia ser por que lhe gostavam incondicionalmente. Suprimia esse último pensamento. Não queria ser gostado. Fazia de tudo para não o ser.

Chegava a casa, exausto de frustração. Não tomava banho. Não comia. Dormia pouco e às vezes. Pensava nisso como fator de repulsão. Chupava limão frente ao espelho e memorizava as expressões para usá-las mais tarde.

- Bom dia! – diziam os passageiros. Ele ignorava e lhe entendiam distraído. Sorriam a ele. A cólera quase lhe saindo às ventas como vômito.

Já não agüentava. Não suportaria nem mais um bom dia, ou tarde, ou noite sequer. O ofício o satisfaria se ao menos correspondessem com suas injurias. Pensava em sair. Mas durante anos, fora a única chance que haviam lhe dado. Não era qualificado. Não pensava em se adequar. Morar na rua, talvez. Pensava no irmão alcoólatra que há muito era andarilho. Ainda assim teria que lidar com pessoas…

Ele dirigia absorto. Passavam (ele, o ônibus e os passageiros) por cima de um viaduto. Afrouxara o cenho. Ele sorria. Há muito não o fazia, não sabia nem há quanto. A mureta lhe parecia bem frágil. Seria uma queda de uns cinco ou seis metros. Ele gargalhava. Chovia fino.


Desencontro.

24Mai08

Chegou de tropeços e chapéu largo, caindo-lhe aos olhos. A camisa de flanela empapada de suor e a sacola de uma alça rasgada com o conteúdo tendendo ao chão. Todos o olhavam.

A primeira abordada o fez invisível. A segunda, nem tanto:

- Qual é o ônibus que eu tomo pra chegar aqui? – e mostrou a foto.

- É o próximo. Ta atrasado. Já deveria ter encostado… – respondeu a senhora, de quase indiferente pra cortês, desprezando o hálito de vodka barata do entrevistador, explicando onde ele deveria descer.

- Agradecido! – e fez uma reverência desequilibrada de pernas entrelaçadas, o que provocou o riso geral.

Recompondo-se, sacou da sacola o litro de vodka, já pelo fim, e deu um trago. Sorriu amarelo.

Há quarteirões dali, um outro causava balbúrdia, dessa vez a garrafa era de rum:

- Eu só preciso sair daqui, me tira daqui! – dizia entre soluços ao motorista do ônibus e arraigado à porta de entrada – Roubaram-me os cobres… – dizia ainda, com certa classe e pesar e voz mole.

Era um homem forte, troncudo, apesar de pequeno e corcunda; e firme, apesar de ébrio, o que impediu que fossem bem sucedidos no bota-fora o motorista e no embarque os demais passageiros pagantes, que ralhavam em fila.

Fez-se silêncio. Ouviam-se apenas os ofegos, do motorista e do bêbado. De reluta à piedade, acordou-se uma carona enfim.

Acomodaram-se então os passageiros, o não pagante e os pagantes, e esses últimos em burburinhos (que apesar de indistintos, eram perceptivelmente sórdidos).

- É esse aí! – disse a senhora apontando pro ônibus que despontava lá embaixo àquele da garrafa de vodka, que no momento ensaiava um cochilo.

- Ah… Certo! – respondeu impreciso do cochilo que acabara de acordar, e levantando-se, arrumou o chapéu, trançou as pernas, acomodou a sacola embaixo do braço esquerdo e dirigiu-se ao fim da fila, seus comensais revelando certa espécie de apreço agora.

Embarcou. O motorista o olhava notadamente aflito de prévias experiências traumáticas. Pagou. O motorista sorriu de alívio. Assentou, ao lado do da garrafa de rum. O motorista, de mãos ao rosto, hesitou, parecendo querer abandonar o ônibus. Passaram-se alguns minutos, e então finalmente o ônibus partiu.

Viam-se pelas janelas, os borrões de pressa e céus de chuva por chover.

- Ei chofer, vai devagar – disse em voz alta e em tom de conselho, o da garrafa de rum e emendou em voz baixa, dirigindo-se ao da garrafa de vodka: que é que você ta bebendo aí?

- Nada demais. E você?

- Rum. Coisa fina. Custaram-me os olhos. Por que é que você ta nessa?

- Não me lembro.

- Ah… Você não é muito de papo né?

- Desculpe.

- Desce onde?

- Aqui… – e mostrou a foto – e você?

- Qualquer lugar… Lugar bonito, o da foto. Não conheço…

Silenciaram. Beberam. Quebraram o silêncio então:

- Acho que já deu pra mim, desço aqui – disse o do rum ao da vodka e em voz alta disse ao motorista: deus lhe pague, chofer! Eu fico por aqui – e voltou-se novamente para o companheiro de assento: posso ficar com a foto?

- Acho que sim… Eu desço logo também – e apertou a mão do outro, dando a foto logo em seguida.

Olharam-se uma última vez. O do rum desceu. O ônibus continuou. Ainda se viam os borrões, mas agora eram de chuva.


Escrevo das flores,

Pra falar das borboletas,

Fragrâncias das mais inebriantes,

Flagrantes da cópula incessante,

Que é a natureza.

Falo de borboleta,

Dobradiça das portas que tu quiser abrir,

Entrar e sair,

Cardume,

Que num abre e fecha incessante,

Cruzam o céu, espelho do mar que é,

Pra te deixar adentrá-lo.

Escrevo e falo,

Das flores, da cópula,

Do entra e sai das borboletas,

Fragrância de cópula,

Escrevo á falo, que a nudez é,

Vestimenta da natureza,

E o minimalismo é borboleta,

Dobradiça da porta que tu quer abrir.

 


Menina moça,

Deprime em temporal, garoa,

Debaixo do guarda-chuva, pisa a poça,

Lagrima é só mais uma gota,

E a dona ali, recolhe a roupa do varal.

Ao invés de peito e cara, põe a mão,

É fria a prova, e ela insiste,

Da chuva o guarda, posto em riste,

Choraminga o pé molhado,

De cima da poça, espelho quebrado.

Menina moça,

Deprime em pranto soluçado, o desgosto,

Não lhe agrada a garoa, que vem fechando em temporal,

E a dona ali, assunta o choro,

Que mescla ao coro que é vento assobiando,

Prenuncio de pé d’água, o horizonte calçando-o.

 

E chega impetuoso, pra fazer par ao pé da moça;

Com vento, que leva consigo o guarda-chuva,

Sopro de trombeta de anjo,

E o farfalhar das folhas, o resto da falange,

Que vem trôpega, num estouro,

Rebentar em temporal garoa.

Menina moça, qual o guarda-chuva voa,

Percebe-se ensopada, percebe-se tempestade,

E por entre os seios, que transparecem ao vestido,

Paridade.

Menina moça,

Exprime em arco-íris, transa,

Do pranto fez gozo,

Uma gota mais,

E a dona ali gargalha nostálgica,

Voltam as vestes aos respectivos varais.




proferem-se sílabas, constituem-se orações, e o martelo encontra a superfície plana, plena, da realidade que eu moldo, emoldurando a arbitrariedade, e a compulsividade, de uma possível contradição.