Arranjos
Inventar os arranjos, dizer os rostos,
Fermentar os ossos do poema, revelá-los simples:
Toda a hipocondria – arranjo repleto geral,
Outro poema: cavalos quebrados –
E toda a ternura, a carne do gesto.
A cabeça da palavra: Herberto Helder
Qual uma península na dança.
A secura que se surripia ao azinhavre;
Uma cabeça de robustez: bisão
Ou outro número.
Toda a hipocondria
Do homem e toda a
Ternura do homem,
A boca da terra
Metida dentro
Dum receptáculo plástico, alto,
Um sismo de seio e umbigo lisos, plangentes –
Toda a miséria metida dentro
Duma prenda,
Com o leite e o esperma numismáticos, parados.
Toda a humanidade
No vazio da dança peninsular,
Nos flancos do temor e da cortesia,
Toda a humanidade
Metida dentro duma criança –
Enxovalhado metal de carne.
Arranjo cerrado: o poema humano, sanguíneo,
Toda a alegria que se pode usurpar à morte,
No quente dentro da pele.
Toda a alegria – pretensa, cegada, urgente: bóson de Higgs.
Arranjo médio: na ilha de Fårö, uma sílaba – um lobo.
A luz ejacula: outro poema: o fotograma: aposição: parataxe:
Dizer a morte sem nome. Toda a hipocondria
E toda a ternura. O poema está. Jamais será.
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Ou Poema
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Hoje: Sim
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Placenta
A escaramuça não tarda. Aqui estais, tu e tua mãe, Vós sois a mesma carne, a mesma teima – A mesma teima, por isto eu mudo-vos. Vossos ovários são esta coisa, Não vós. Cruel tauromaquia. Fim de um silêncio.
Amar-te – mais que isto –; O corpo estiolado, a insistência. Mas te escolhi, escolhi, pois, estar fraco. Esta coisa fraca Que escrevo. Este dicionário, Filho nosso, Que agora não me admite. Dizer-te é o mesmo que Dizer o mênstruo, a bicicleta. Tenho ainda pressa, entretanto já não me reconheço. Não te reconheço. Tu ou tua mãe? Dizer a tua cabeça sem boca – tu sequer falas – É o mesmo que dizer o último ano, o luxo, a obra. Negar-te, vingando-me, é fim como início. E sem mim.
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Poema Para Ler No Supermercado
I.
Perturbar com o meu corpo de paisagens surdas O nome frio e novo da árvore que fora lavrada. Hoje fez tremer de júbilo a minha voz Um homem que dizia os números dele a uma mulher. Hoje quero a minha voz dentro da chuva E um doce matinal de penas e lixívia. Não quero falar das bocas infensas e encardidas E nem da terra aguardadora e hialina como um amor. Hoje quero perturbar com o meu nome de paisagens Surdas o corpo frio e novo da árvore que fora lavrada. A cabeça vulgar e parda do lobo irrompendo da areia: Hoje um homem que dizia os números dele a uma mulher fez nascer Da teimosia e do suicídio um poema risonho ou uma criança antiga.II.
Como um velame que saísse da voz, Deram-me a geometria dos gestos: A virgindade do trigo e a volúpia nos nós Do pão – o aroma a pão dormindo nos restos Do homem, nos braços lenhosos Do homem (tinha este homem Um nome de pedra e sal e forçoso Ensinou-me a mudez). O forâmen Brilhando seco na cabeça do lobo: Até hoje me faltara paciência. Até hoje. Este poema demora uma vida, E o rosto vincado Na cabeça dele diz Imobilizado: Deixa que o vento ocupe o espaço urgente de palavra Que rebenta dos teus passos esfaimados. Dizer a uma mulher os meus números. Até hoje eu escrevera um tronco apenas. Até hoje. Hoje um homem que dizia os números dele a uma mulher fez nascer Da teimosia e do suicídio um poema risonho ou uma criança antiga.Filed under: o lume intestino | Leave a Comment
Weekend
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O Lobo
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Bárbara
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Da Pedra (Longe)
Uma criança e um sangue, O cio nos olhos dos símios, A maciez de um desassossego por sobre Os liquens dos nossos nomes. Esfalfar-se na violência de uma paixão Qualquer: Quero uma paz de animálculo, O carinho da terra. O trigo por debaixo das pálpebras, O nó grosso da geografia negaceando; O cio opalino do regresso. E a prenhez da pedra.
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Pequeno Poema Para Crianças
I – Leite
Estava e não, Treme luz de achas enfrentando O cerne de inverno dos dedos, Assim meu pai: E eu com ódio no depois, amor no que carece. Os olhos dele escaras, O telúrico contentamento, e escuro, de encontrar-se Noutro: Pai. A dança do sabre; uma cogitação, Um coaxar – a mulher esconsa de cada dia. Tempo mênstruo. Ruína e ruína. Estava e não, Espelho de sangue; Mas eu sei que da vida Não lograrei obter coisa outra que não a morte. Um ovo oco, umbroso, tolhido como deveriam ser todos Os projetos.
II – Sêmen
Era e não, Um olho de peixe, o outro de gato No miolo da truculência, Toda a tristeza de mãe: Uma canção de se encerrar as aves. Os números úmeros meros, O grito por detrás das narinas do rubi e do alcatrão Virgens: Sêmen. O leite, a luz, um peixe; um êmbolo negro, O ressaibo da ruína na uretra – o rincão vermelho na luz. A morte é amena. Terra e terra. Era e não, Hímen de mãe; Mas eu sei que do corte Não lograrei obter coisa outra que não o nome. Um útero avaro, lindamente, emético como deveriam ser todas As cópulas.Filed under: versos perdidos | Leave a Comment
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