Desencontro.
Chegou de tropeços e chapéu largo, caindo-lhe aos olhos. A camisa de flanela empapada de suor e a sacola de uma alça rasgada com o conteúdo tendendo ao chão. Todos o olhavam.
A primeira abordada o fez invisível. A segunda, nem tanto:
- Qual é o ônibus que eu tomo pra chegar aqui? – e mostrou a foto.
- É o próximo. Ta atrasado. Já deveria ter encostado… – respondeu a senhora, de quase indiferente pra cortês, desprezando o hálito de vodka barata do entrevistador, explicando onde ele deveria descer.
- Agradecido! – e fez uma reverência desequilibrada de pernas entrelaçadas, o que provocou o riso geral.
Recompondo-se, sacou da sacola o litro de vodka, já pelo fim, e deu um trago. Sorriu amarelo.
Há quarteirões dali, um outro causava balbúrdia, dessa vez a garrafa era de rum:
- Eu só preciso sair daqui, me tira daqui! – dizia entre soluços ao motorista do ônibus e arraigado à porta de entrada – Roubaram-me os cobres… – dizia ainda, com certa classe e pesar e voz mole.
Era um homem forte, troncudo, apesar de pequeno e corcunda; e firme, apesar de ébrio, o que impediu que fossem bem sucedidos no bota-fora o motorista e no embarque os demais passageiros pagantes, que ralhavam em fila.
Fez-se silêncio. Ouviam-se apenas os ofegos, do motorista e do bêbado. De reluta à piedade, acordou-se uma carona enfim.
Acomodaram-se então os passageiros, o não pagante e os pagantes, e esses últimos em burburinhos (que apesar de indistintos, eram perceptivelmente sórdidos).
- É esse aí! – disse a senhora apontando pro ônibus que despontava lá embaixo àquele da garrafa de vodka, que no momento ensaiava um cochilo.
- Ah… Certo! – respondeu impreciso do cochilo que acabara de acordar, e levantando-se, arrumou o chapéu, trançou as pernas, acomodou a sacola embaixo do braço esquerdo e dirigiu-se ao fim da fila, seus comensais revelando certa espécie de apreço agora.
Embarcou. O motorista o olhava notadamente aflito de prévias experiências traumáticas. Pagou. O motorista sorriu de alívio. Assentou, ao lado do da garrafa de rum. O motorista, de mãos ao rosto, hesitou, parecendo querer abandonar o ônibus. Passaram-se alguns minutos, e então finalmente o ônibus partiu.
Viam-se pelas janelas, os borrões de pressa e céus de chuva por chover.
- Ei chofer, vai devagar – disse em voz alta e em tom de conselho, o da garrafa de rum e emendou em voz baixa, dirigindo-se ao da garrafa de vodka: que é que você ta bebendo aí?
- Nada demais. E você?
- Rum. Coisa fina. Custaram-me os olhos. Por que é que você ta nessa?
- Não me lembro.
- Ah… Você não é muito de papo né?
- Desculpe.
- Desce onde?
- Aqui… – e mostrou a foto – e você?
- Qualquer lugar… Lugar bonito, o da foto. Não conheço…
Silenciaram. Beberam. Quebraram o silêncio então:
- Acho que já deu pra mim, desço aqui – disse o do rum ao da vodka e em voz alta disse ao motorista: deus lhe pague, chofer! Eu fico por aqui – e voltou-se novamente para o companheiro de assento: posso ficar com a foto?
- Acho que sim… Eu desço logo também – e apertou a mão do outro, dando a foto logo em seguida.
Olharam-se uma última vez. O do rum desceu. O ônibus continuou. Ainda se viam os borrões, mas agora eram de chuva.
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Ah! Você só me deixa com vontade de saber o que aconteceu com os dois! E eu já criando algumas situações… Hahahaha.
Mas a parte do motorista é ótima! Sinto dó do coitado. Imagine o que motoristas não deve passar, hein? Hahahahaha, engraçado.
Ainda acho que o passageiro com o rum irá ao lugar bonito. Afinal, que lugar é esse?
Gostei muito dos detalhes, como te falei!
Quero mais, vê se não abandona!
Beijos, te amo!