Encontro.

03Jul08

Ninguém sabia ao certo o nome dele. Arriscavam pelo canto da boca. O que arriscavam haviam ouvido de outros passageiros que sabiam ou o achavam e que desciam do ônibus e agradeciam-no. E ele por sua vez, usava o crachá ás avessas ou não usava. Não gostava de pessoas, dizia. Dizia pouco, mas quando o fazia era pra justificar a marra. A amargura não lhe transparecia ao rosto terno. Ele o escondia por trás da barba não muito passada do ponto por exigência do patrão. As pálpebras lhe caiam aos olhos e como fator atenuante da expressão pesada que amarrava todos os dias, antes de sair de casa pra trabalhar. Não gostava de pessoas, pensava; daí franzia o cenho e os beiços. Estava naquela por falta de opção. E tédio era coisa que lhe matava, então engolia as pessoas, que a propósito achavam-lhe a cara demasiada engraçada.

- Bom dia! – diziam os passageiros. Ele escarnecia, e lhe entendiam um sorriso. Ele não gostava, quase morria de engasgado: vinham-lhe disparates mil à boca. Não dizia. Não gostava de pessoas, não lhes dizia. Nem disparates, nem bom dia.

E assim ia. Dava-se bem com o ônibus. Volante e câmbio e pedais eram como membros seus. Retrovisores, pares extras de olhos. Atiravam-se contra as ruas e àqueles que transitavam por elas. Não paravam a atrasados.

E assim ia. Veloz. Os passageiros se segurando, como marionetes penduradas, não reclamavam. E então, ele freava, bruscamente, e todos os passageiros iam para frente, como uma massa mole e malcheirosa: não reclamavam. Não se ouvia um único muxoxo de desaprovação. Ele entrava nas curvas sem diminuir a velocidade, ziguezagueava, furava sinais vermelhos e não obtinha sequer um suspiro de desagrado. Deprimia-se.

E assim ia, sem muita vontade. Mas logo se estimulava, pensando que não lhe reclamavam por medo. Pensava também que poderia ser por que lhe gostavam incondicionalmente. Suprimia esse último pensamento. Não queria ser gostado. Fazia de tudo para não o ser.

Chegava a casa, exausto de frustração. Não tomava banho. Não comia. Dormia pouco e às vezes. Pensava nisso como fator de repulsão. Chupava limão frente ao espelho e memorizava as expressões para usá-las mais tarde.

- Bom dia! – diziam os passageiros. Ele ignorava e lhe entendiam distraído. Sorriam a ele. A cólera quase lhe saindo às ventas como vômito.

Já não agüentava. Não suportaria nem mais um bom dia, ou tarde, ou noite sequer. O ofício o satisfaria se ao menos correspondessem com suas injurias. Pensava em sair. Mas durante anos, fora a única chance que haviam lhe dado. Não era qualificado. Não pensava em se adequar. Morar na rua, talvez. Pensava no irmão alcoólatra que há muito era andarilho. Ainda assim teria que lidar com pessoas…

Ele dirigia absorto. Passavam (ele, o ônibus e os passageiros) por cima de um viaduto. Afrouxara o cenho. Ele sorria. Há muito não o fazia, não sabia nem há quanto. A mureta lhe parecia bem frágil. Seria uma queda de uns cinco ou seis metros. Ele gargalhava. Chovia fino.



2 Responses to “Encontro.”  

  1. 1 Tainah

    “Chupava limão frente ao espelho e memorizava as expressões para usá-las mais tarde.”
    HAAAAAAAAHAHAHAHHA! boa! (Y)

    que medo, né? ainda mais desse fim, que coisa horrível, gente. agora, quando ao subir em um ônibus, olharei para o motorista e se ele sorrir pra mim, ficarei bem mais aliviada. caso contrário, capaz de eu descer um segundo depois!

    agora que eu sei as ligações desses dois contos, percebo o quão interessante ficou.

    mas é triste, o fim.

  2. 2 Bobby

    Nossa… eu gosto do jeito como você arruma as palavras!

    Tanto na poesia quanto nos contos!

    Gostei deste… Como gosto de todos… Cada um tem uma particularidade e algo novo a expressar!

    Orgulho do meu primo!

    XD

    Flows!


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