Novas Cores.

20Set08

Vem o impulso. Procuro o que fazer pra não ter que decidir parado. Decido: eu vou. Apronto-me de um pulo por ter me atrasado enquanto indeciso. Saio à rua e me vêm os ventos do inesperado à cara. Penso em mim. Desconheço-me. Gosto disso. Gosto de perceber-me outro. Gosto das novas cores e da falta de cor, do ônibus ruidoso e do atraso.

Atraso.

Hoje entendo que existir é atemporal.

A existência é baseada em escolhas.

Não a vi. A saudade aperta. Há alguns minutos eu maldiria a rotina, como de fato o fiz e refaço agora, corrigindo-me: prefiro adequar-me. Ela me ensinou isso. A saudade aperta a cada pensamento, nuvem, carro, abrir de sinaleiro. Vejo-a em tudo, em todos. Havia combinado de encontrar-me com ela no ônibus e atrasei-me. Mulher da minha vida…

A viagem é imperceptível. Alcanço a rua novamente.

Hoje entendo que alcançar é existir.

Baseio-me em meus alcances, e assim chego. Atrasado, porém.

Encontro-me com os meus. Meus novos. Os que pensei jamais poder chamar de meus. O orgulho nos trai.

Passo a tarde; passo-a como havia planejado antes de indispor-me.

Penso nos meus. Meus novos. Os que agora posso chamar de amigos e que jamais pensei poder fazê-lo. Rio-me. Como pudera ser tão frio? Faz frio. Sinto-o mais intenso do que ele de fato é. Percebo-me outro. Gosto das novas cores.

Espero o ônibus de volta, ladeado pelos meus novos amigos. Vem o impulso. Procuro andar pra não ter que decidir parado. Despeço-me. Decido: eu vou.

Tenho pressa, mas desconheço os motivos. Penso nela. Penso neles. Penso nas mudanças e na forma como elas se dão. Sinto-me bem. Sinto-me.

Encontro-me com os meus. Meus antigos. Os que pensei que já não poderia mais chama-los de meus. O orgulho nos trai.

Começo a noite; começo-a bem, falando de minhas origens, que às vezes acabam se perdendo em face de tantas deviações. Pergunto-me quem sou. Quem fui.

Ouço dizerem que pensaram em mim. Sou querido. Não lido muito bem com a querência. Subestimo-me.

Passam-se as horas e eu as passo com os meus. Os ainda meus amigos. Minha ligação comigo mesmo. Entendo os impulsos. Sinto-me satisfeito por tê-los obedecido. Sinto-me. Sinto muito por não poder ficar mais, pois já é dada a hora de partir e me despeço. Penso que só os verei novamente, os meus antigos amigos, em ocasião igualmente aleatória. Penso em pedir que não me esqueçam. Só penso, não peço e me despeço novamente.

Saio à rua e me vêm os ventos do inesperado, decifrados, à cara. Rio-me.

Ando pela noite e sou cada nuvem, cada carro, cada abrir de sinaleiro. Respiro, ou melhor, ofego à pressa e agora sei dos motivos: já é tarde. Penso nela, preciso dela. É bárbara a necessidade de tê-la comigo a todo instante, a mulher da minha vida. Penso no passado próximo, nos mais próximos, nos próximos instantes e na iminência da distância e me pego absorto pra voltar às ruas de súbito e ao encontro de mais um dos antigos. Antigos amigos. Estacamos então: fazia tanto tempo que não nos víamos. Abraçamo-nos. A conversa fluiu como quando nos víamos todos os dias, mais espontânea até, eu diria. Desviamos nossas rotas para que o encontro durasse mais. Os ventos riem. É impossível decifra-los. A pretensão é traiçoeira. Despedimo-nos então, à hora e à esquina de tomarmos, cada um, um caminho.

Vou-me. Penso na vida. Vivo.



3 Responses to “Novas Cores.”  

  1. 1 Tainah

    Ah! É bom ler textos mais pessoais seus, bom saber de você não somente através de algumas palavras trocadas. Sempre tão bom ler seus pensamentos.

    No geral, achei triste, sabia? O texto.
    Não sei, melancólico.

    Mas eu gostei. :)

  2. 2 Tainah

    Até eu me senti triste, ahahaha, acredita? Er.

  3. 3 Duane

    Gostei muito do ritmo rápido e fluido!WOW!!


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