Outro Conto

05Dez08

- Não! Por deus, não! – ela dizia. As mãos vermelhas do sangue dele.

Logo à frente, a viatura, que há pouco desenvolvia uma perseguição, encontrava-se impedindo a pista e, de rodas para cima, o carro do fugitivo vazava combustível, fazendo-a exasperar-se. Na via contrária, o tráfego fluía ímpar.

- Olhe para mim! Você não pode me deixar! Não dessa maneira. Escute-me: você vai ficar bem, prometo-lhe.

Ele a ouvia, porém sem responder-lhe, vertendo-se em sangue. Os policiais se aproximavam.

- Rápido com isso! – ela berrava, sufocando com a saliva espessa e as lágrimas – Ajudem-me! Ele foi baleado…

- Há uma ambulância a caminho, moça…

Era um prédio antigo, salmão e descascado. Um hotel dos mais baratos. Vantagem é que ficava no centro, e o senhor do apartamento duzentos e vinte e dois fazia questão disso.

Anoitecia e ele abotoava o último botão do paletó pra alcançar as escadas e depois a rua, falseando em sua bengala de marfim, como sempre fazia. Era um fim de tarde daqueles de temperatura amena e poucas nuvens ao céu e o senhor o apreciava fechando os olhos vez em quando: gostava desses e sentia-se reciprocamente retribuído quando o vento brando acariciava-lhe os cabelos alvos e ralos, ao contrário de quando o dia findava quente e sem nuvens; esses fins de tarde pareciam odiá-lo. Pelos chuvosos, há muito ele não caminhava, mas se lembrava de quando adolescente. Caminhar pelo anoitecer, todos os dias, punha-o nostálgico. Lembrava do filho que não via há tempos. Desviava as memórias. Sentia, dos canteiros, os doces aromas das raras flores e a garoa dos aspersores. O bar dos cafés diários já se fazia visível e o senhor sentia um vigor juvenil aflorando-lhe aos membros. Resolveu ousar um bocado: o fim de tarde se fazia propício a ousadias. Com os olhos semicerrados desapoiou-se da bengala e andou como se não precisasse dela. Sentiu um tremor leve e o ignorou. A calçada estava molhada dos aspersores e ele percebera, porém também ignorou. Desmoronou. Lá adiante se viam nuvens aproximando-se rápidas e que mais tarde se precipitariam em chuva.

- Penso em meu pai – ele disse, quebrando o silêncio.

- Você nunca me disse muito sobre ele.

- Prefiro assim.

- Não me agrada muito.

- O que?

- Essa lacuna. Não sei das tuas raízes. Isso me confunde quando eu tento estabelecer parâmetros.

- Você é complicada demais.

- Você.

- Entenda-me.

- É só o que eu faço.

- Ele morreu.

Ela engoliu em seco.

Chovia. O senhor do duzentos e vinte e dois corria pelos descampados da juventude, nu. Algo lhe adentrava as veias do braço causando incômodo. Ele acordou então. Passou os olhos ao redor levantando somente o pescoço. Chovia. Gotejavam, o soro do companheiro de quarto e os pingos lá fora, sincronizados. Uma camisola azul e aberta na parte de trás o vestia e o vento que entrava reprimido pela fenda mínima da janela quase totalmente fechada refrescava as partes internas de suas pernas. A esquerda pendia engessada de um aparato preso ao teto. Alguém adentrava o quarto.

- Há algum parente próximo com qual poderíamos entrar em contato? – perguntou a enfermeira, sem delongas.

- Não. Bem, sim. Mas é melhor não.

- Sim ou não?

- Sim e não. – o senhor respondeu coçando os olhos – O que foi que aconteceu?

- O senhor escorregou, seus ossos estão fracos… Quem é a pessoa?

- Meu filho.

- Posso contatá-lo?

- Na verdade não, mas faça.

- Está certo. – A enfermeira disse acendendo um cigarro.

Os dois moravam juntos há algum tempo. Não eram de muita conversa. Não precisavam. Ela saía cedo, voltava tarde. Ele não saía. Fazia de casa o trabalho. Acordava primeiro e a acordava. Ficava a olhá-la acordando, lambia-a nos olhos, beijava-a na boca, sorriam. Ela se levantava e se banhava. Ele preparava o café, servia-a, despachava-a e voltava a dormir depois. Acordava de novo, tarde, preparava o almoço, cuidava da casa e do trabalho de revisor, se porventura tivesse algum. Ela chegava. Ele não falava. Não falava, mas vinha bem falante nesses últimos tempos e encarquilhando as sobrancelhas quando o fazia. Falava do jornal, do trabalho dela, do barulho dos carros à tarde, da violeta sequiosa na sacada. Ela estranhava. Ele falava. Daí então silenciava, como que se dando conta do falatório, estranho. Voltava a falar, quebrava o silêncio num tom mais baixo e sério. Aí falava do pai. Ela estranhava: do tempo que estavam juntos ele pouco falara do pai.

- Como foi que se deu a morte? – ela perguntou.

- Como se dá.

- Sou intrusiva quando pergunto?

- Imagina.

- Não?

- Claro que não.

- Por que você não me diz?

- Prefiro assim.

- Você nunca diz.

- Não.

- Prefiro o sim. – ela disse; as mãos soltando o cabelo preso de trabalhar, o telefone tocando.

- Você atende?

- Não.

- Insolente! – ele a chamou, rindo e levantando-se para alcançar o telefone. – Pois não? – ele atendeu – Como é?

Ela o via enrubescer, apertar os olhos, menear o pescoço, despentear os cabelos. Preocupava-se, não se agüentava. Ele desligou. Ela perguntou, aflita:

- O que se passa?

- Leva-me ao hospital.

- Por quê?

- Só me leva.

Ele corria de mãos dadas com o pai, atrás da pipa. Choramingava a perda. Sempre atribuíra valores demasiados sentimentais às coisas sem valor. Inda hoje guardava as conchas da primeira ida à praia. A pipa se ia. O pai, cada vez mais diminuía o ritmo. Ele, aumentava o pranto. Pararam finalmente: ele de muito pranto, o pai de muito abraço, fazendo-lhe cócegas até arrancar-lhe um sorriso. Ele chorava mudo no banco do carona, o pai também, no hospital.

Ela dirigia apressada, olhando, vez em quando, pra ele. Não se atrevia a perguntar. Sabia que se o fizesse ele responderia, mas sabia também que não se satisfaria com a resposta. Iam-se. Ela, cada vez mais aumentava a preocupação, ele, aumentava o pranto. Ela se resolveu por perguntar finalmente, no entanto interrompeu-se antes de terminar, quando de um carro que seguido de uma viatura policial passaram zunindo por eles, aí, ao invés de terminar a pergunta, maldisse uns impropérios. Ele se riu dela. Ela respirou profundo, aliviada, rindo também. Deram-se conta de que a viatura lá na frente parara e pararam também, observando, como que temessem algo. O motorista do outro carro, que havia capotado, saíra do mesmo, ileso, de pistola na mão e ameaçara os polícias. Esses, por suas vezes, desceram da viatura rendidos. O bandido correra então. Vinha correndo na direção dos dois, que se exasperaram: ela de mordidas aos beiços, ele enxugando as lágrimas dos olhos. Os polícias dispararam contra o bandido, sem êxito, porém não sem um alvo atingido. Ele, de dentro do carro, desfalecera.

- Não! Por deus, não! – ela dizia. As mãos vermelhas do sangue dele.



2 Responses to “Outro Conto”  

  1. 1 Tainah

    Pra quê matar as pessoas? Hein? Puxa vida…
    Sabe de uma coisa que eu gostei bastante? Do diálogo, entre a mulher e o cara. Eu sei lá, gostei. Hahaha.

    Por favor, sem mortes no próximo, garoto!

  2. Que espirito mais serial killer!

    A história fez bastante sentido… agora… no fim! XD

    Gostei! ^^


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