Quando da meninice, ele via, de olhadelas entrecortadas de pejo e medo, por detrás das saias da mãe, somente sapatos. Não se arriscava às canelas. Não que nunca o tivesse feito, mas quando o fazia, era acometido de uma tremura tão enérgica que mal conseguia andar. Pegava-se das saias da mãe quase as rasgando. Era a medicina.

Foi-se crescendo, arriscando-se, sempre de olhadelas bem rápidas e foi-se habituando. Já olhava canelas. Joelhos. Conhecia as pessoas assim. Aí se descobriu. Pôs-se nu certa vez e olhou-se até onde as vistas permitiam, memorizou cada parte de si. Tocou-se. Tocou-se no rosto, primeiro atônito e pressuroso, depois afoito e lento. Encantou-se. Correu-se para o espelho. Evitava-o desde quando se lembrava. Derrapou frente ao objeto. Fitava, disfarçando, o peito refletido. Era um espelho grande, pendurado à parede do quarto da mãe, redondo e de moldura de madeira trabalhada à mão. Subia os olhos baixando-os logo em seguida. Avistou o pescoço. Via-o brotando donde normalmente abotoava-se a gola da camisa. Parecia-lhe despojado, bem solto, quase mole. Então o rapaz subiu, de mais uma fitada, o olhar, mas não o desceu. Demorou-se ao queixo. Como era bem feito o seu queixo! Já lhe nasciam alguns ralos fios de barba. Tocou-os. Fazia-se necessidade raspá-los. Correu alcançar a lâmina e a espuma do pai. Correu voltar para defronte o espelho. Hauriu bem profundo todo o ar que lhe cabia ao peito e encarou-se nos olhos. Como eram belos, de um verde único, nunca dantes visto em sapato ou canela de espécie alguma. Ficou ali, o belo queixo estirado, pendendo, e os belos olhos feitos dois rombos verdes na cara. Esqueceu-se da barba.

Daí pra diante o tempo fez-se zombaria e a mocidade, toda ela, desabrochou nele de súbito, como estivesse sendo guardada durante os anos que se esvaiam zunindo, como o sujeito tivesse envelhecido de idades, mas não de aparências, e num dado instante, vigorosamente, fosse feito rapaz. Sobrava-lhe ainda um restolho da timidez infante, coisa que ele tratou de findar impondo a si mesmo encarar nos olhos qualquer um com quem topasse. Acabou fazendo gosto disso. Depois se envaideceu. Punha-se bastante confiante num colóquio, observando bem o interlocutor, olhando-lhe nos olhos vez em quando. A barba crescia-lhe ao rosto conferindo certo garbo, ressaltando os olhos verdes. Cumprimentava as moçoilas da vizinhança curvando-se exageradamente e olhando-as nos olhos em seguida. Via-as enrubescerem. Sentia-se bonito.

Acordava bem cedo, o sol espreguiçando os primeiros raios, e já se ia para o espelho. Penteava os cabelos negros, lavava o rosto e enxugava-o depois com bastante zelo, redobrava a atenção com a barba, também negra. Olhava-se ao espelho novamente antes de vestir o paletó por cima da camiseta de dormir e trocar a calça. Repetia esse processo religiosamente, todos os dias. Ia à padaria, comprava os três pães franceses de sempre e voltava a casa. Encontrava o pai já de pé, esperando-o. Desjejuavam juntos e de pouca conversa. O pai saía e ele voltava ao espelho. Despia-se. Admirava-se. Ia banhar-se então. Demorava-se: pipocavam-lhe milhões de imagens à cabeça, imagens que se iam fazendo turbilhões indistintos de cor e movimento, que o punham em transe, de molho à banheira. E ele se ia dissolvendo ali, as cores saindo pelos orifícios da cara e do corpo em abruptas torrentes e se misturando à água. Depois se fazia uma calmaria. Não tardava, todo aquele líquido condensado revoltava-se em fios espessos e materializava-se em rapaz, cada pausa e revolta como condutores de uma orquestra invisível. Ele voltava a si, sequioso, como a banheira. Sequioso de manifestar-se. Vinha-lhe aí um embaralhado de palavras que precisava ser organizado, disposto de modo a relatar o que havia visto. Vinha também o berro da mãe, noticiando o atraso. Rapidamente ele aprontava-se e saía à rua rumo ao colégio, todo o ideário fugindo-lhe. Certa vez resolveu então anotar as memórias em um dos cadernos escolares: Caminhava escrevendo, vez em quando tropeçando aqui e ali, topando com obstáculos. Nunca havia escrito. Não daquela forma, tão subjetiva, tão introspectiva, tampouco escrevera caminhando. Aderiu muito contente à prática. Não deveria deixar escapar nenhuma imaginação.

Numa dessas caminhadas, certo acontecido pôs-lhe apreensivo: ele escrevia, como sempre, sobre as jornadas que lhe propiciavam os banhos matinais, já não tropeçava tanto, dado que quando em quando entremetia uma olhadela ao caminho. Isso lhe lembrava a infância não tão distante, as saias da mãe. Entre uma mirada e outra avistou certa silhueta feminina, que já de longe esbanjava graça. Parou com as lapisadas. Aproximou-se. Iria encarar-lhe nos olhos. Não conseguiu, pois. Isso lhe fez pensar que voltara então à criancice. O que acontecia? Tentou novamente, agora com a mocetona lhe sorrindo, bem de perto. E não é que a velha tremura também voltara? Diante do embaraço, logo ele abriu do caderno e enfiou-se ali no meio fingindo que lia. Distanciou-se. O que acontecera? Decidiu-se por não ir às aulas naquela manhã. Não poderia voltar a casa, sua mãe de certo o castigaria por prevaricar com as obrigações escolares. Caminhou então, sem rumo, durante o tempo que julgou ser o bastante. Deveria estar longe, da escola e de casa. Estacou aí. O que faria? Olhou ao redor. Viu um café. Dirigiu-se até lá. Não tinha dinheiro algum, ficaria ali matando o tempo, escrevendo talvez. Adentrou o estabelecimento. Penumbra. Todos olharam. Ele se caminhou até uma mesa afastada, acanhado, e sentou-se de cadernos ao colo. Logo uma garçonete veio perguntando-lhe, com certa rabugem, o que seria. Não seria. Então ela disse que não se podia permanecer ali sem consumir.

- Está certo. – ele disse levantando-se.

- Não está certo. Trago-te um café por conta da casa. – disse ela, de rabugenta à cordial.

- Está certo!

- Sim, agora sim.

Ele sentiu-se bem. Todos o olhavam de fumaças compulsivas às ventas, o braseiro dos cigarros conferindo certa iluminação ao ambiente. Todos mais velhos, alguns já grisalhos. Ele depositou os cadernos em cima da mesa então. Todos o olhavam. Ele retribuiu. Encarou cada um nos olhos. O que acontecera horas antes? O que havia de errado com a mocetona? E que belas formas arredondadas ela possuía! Inspiravam-lhe! Decidiu-se por escrever então. Já não o olhavam. Fumavam compulsivamente ainda. O café chegara também fumegante.

- Aqui está! – disse a garçonete sorrindo por entre o bafo que subia da xícara

- Agradecido!

Seguiu-se um momento de silêncio. A garçonete ainda sorria com o café na bandeja, absorta. Pareceu dar-se por si então, daí depositou à mesa do rapaz um livro e em cima desse o café e saiu sem dizer nada. Então o rapaz rapidamente retirou a xícara de cima do livro, trouxe esse último à altura dos olhos e examinou-o atentamente, cheirou-o, tocou-o, cada parte dele, mas sem abri-lo. Não havia nada escrito na capa, nem na contra capa, ambas duras, de couro. Decidiu-se por abri-lo: nada escrito em seu interior também. Folheou-o: nada. Lembrou-se do café e apanhou a xícara trazendo-a até a boca e molhando o beiço superior superficialmente testou a temperatura. Já estava frio. Melhor assim. Nada muito quente o agradava. Tomou de um gole só o café. Lembrou-se das horas. Pensou em perguntar a alguém, mas logo avistou o grande relógio de pêndulo perto do balcão. Já era hora de partir. Apanhou os cadernos então, e o livro recém ganhado. Rumou à porta. Ninguém o encarou dessa vez. Procurou pela garçonete, porém não obteve sucesso. Não importava, ele planejava voltar ali em breve, daí então a agradeceria, a garçonete, pelo livro em branco.

Acordou na manhã seguinte com a mocetona aos pensamentos. A sensação era de tê-la possuído em seus sonhos. Vacilou um pouco antes de levantar-se. Dirigiu-se ao espelho como de costume. Aos bocejos penteou a cabeleira negra. Estranhou o silêncio. Não era o mesmo silêncio de todas as manhãs, o silêncio ao qual ele estava acostumado. Encaminhou-se ao quarto dos pais sem lavar o rosto. Não havia ninguém, a cama como que feita para impressionar, de tão arrumada. Não havia cheiro ou calor ou até mesmo resquício de algum dos dois, como que nunca ninguém houvesse pisado aquele quarto. O rapaz correu então ao quarto que era seu e trocou de calça rapidamente, de modo que saiu à rua ainda abotoando-a. Não sabia o que fazer. Não sabia, tampouco, por que estava à rua. Não sabia onde estavam os pais. Sentou-se à sarjeta então e pôs-se a prantear, mas também sem saber o motivo. Sentiu que ninguém poderia ouvi-lo. Gritou. Somente o vento brando fazia-se ouvinte. Gritou novamente, desta vez já sem nenhuma lágrima aos olhos. Levantou-se. Mirou o muro da casa onde findava a rua estreita em que morava. Viu surgir um vulto. Uma pessoa. Movia-se graciosamente. Aproximava-se. Não lhe parecia ser coisa concreta. Não sentiu medo, porém. Fechou os olhos. Abriu-os após respirar profundo. Era ela. Reconheceu aquela silhueta feminina de imediato. Fechou os olhos novamente. Sentiu o cheiro do que lhe pareceu café, erva-doce e suor. Abriu apenas um olho. Teve certeza. Sentiu o chão escapar-lhe aos pés. Fechou o olho que tinha aberto.

Acordou. Pensava na mocetona. A sensação era de tê-la possuído. Era noite. Lembrou do que ocorrera pela manhã. Deu-se conta de que não sabia onde estava. Percebeu-se desnudo. Alguém bocejava às suas costas. Era uma cama de casal. Amedrontou-se. O cheiro de café, erva-doce e suor impregnava o ambiente. Era ela. Virou-se então. Pela primeira vez encarou-a nos olhos e era como se já o tivesse feito milhares de vezes. Sentia a genitália sensível. Teria sido sua primeira noite com uma dama?

- Sim. – a mocetona disse, como que lhe respondendo o pensamento.

- Não. – o rapaz replicou.

Ela levantou-se, desnuda, e dirigiu-se à cozinha, que não era separada, por parede, do quarto onde estava a cama de casal. Ele a seguiu. Como era bela! Sentiu o desejo de possuí-la por cima da mesa da cozinha e o fez. Ficou surdo. Estava cansado, como que tivesse passado a vida toda procurando por ela e de repente a mesma tivesse se feito visível. Ali estava ela, imponente, mas transparecendo ingenuidade e desconfiança a cada olhar que entremeava, disfarçando impetuosa, ao redor. Sentiu-se demasiadamente satisfeito. Deitou-se. Certificou-se de que o local lhe oferecia um bom apoio aos braços e ao rifle, que carregou como se estivesse introduzindo as balas em outro braço que lhe havia brotado. Ficou cego. Como faria mira? Desesperou-se. Sentiu que a deixaria escapar. Respirou profundo. Sentiu o cheiro da caça, do suor nervoso que lhe empapava os pêlos. Excitou-se. A visão já não lhe importava. Tranqüilizou-se. Puxou o gatilho. Perdeu os sentidos restantes. Recobrou-os após um longo tempo. Estivera em alguma espécie de limbo. A sensação era de ter vivido uma vida inteira. Não se lembrava, porém, de nada. A mocetona lhe acariciava o peito. Agora já lhe era sabido os nomes dela. Adormeceu então.

Puseram-se de pé como se não tivessem dormido. Ainda estavam nus, o rapaz e a mocetona, e assim permaneceram. Desjejuaram. Permaneceram sentados à mesa. O tempo como se estivesse parado. Ouviram alguém à porta. Vestiram-se, mas era como se permanecessem despidos. Atenderam ao chamado:

- Bom dia! – a mulher do lado de fora desejou.

Não houve resposta. A mocetona abriu a porta. O rapaz reconhecera a mulher que foi logo se encaminhando à cozinha.

- Faço-lhe um café? – a mulher perguntou.

- Fala comigo?

- E com quem mais poderia?

- Está certo… – o rapaz estranhou.

- Sim, agora sim.

Houve silêncio durante todo o período em que a garçonete preparava o café. Ele havia se sentado à mesa novamente. A mocetona lhe beijava as orelhas.

- Aqui está! – disse a garçonete segurando uma xícara negra repousada sobre um pires branco.

- Agradecido!

Ela passou-lhe a xícara diretamente às mãos e saiu pela porta por onde havia entrado, a única na casa a propósito. O café estava quente. O rapaz deixou-o esfriando sobre a mesa e pôs-se a olhar a casa. Parecera-lhe maior. Eram dois cômodos afinal: o quarto de dormir emendado à cozinha e o banheiro. Olhou a cama de casal: por sobre ela repousavam o livro de capa dura de couro que havia ganhado da garçonete e uma pena. Voltou-se ao café, assoprou-o, pegou da xícara pela asa e levantou-se. Foi à cama. Assoprou novamente o café e deu um gole. Cuspiu. O lençol branco tingiu-se de vários pontos negro-azulados.

- Escreva – disse-lhe a mocetona.

- Sobre o que?

- Escreva, apenas.

- Está certo.

- Não mais.

- O que há?

- O errado – ela respondeu deitando-se sobre a mesa.

- Não entendo…

- Escreva, não entenda. Beba a tinta.

- Não posso…

- Não diga!

- Calo? – ele disse com a voz trêmula.

- Escreva! – ela disse despindo-se.

- Onde está a pena?

- Você é um pássaro.

- E o livro em branco?

- Eu sou.



One Response to “A Primeira Morte do Escritor”  

  1. Deixo Aqui a minha revolta por perder a chance de escrever essa maravilha :/


Leave a Reply