Monólogo
Sentei-me à beira da cama. Não pensava em nada. Não conseguia. Apoderava-se da minha carcaça uma alvura irrestrita. E uma resignação. Não via motivos para levantar-me. Não via nada. Não havia nada para se ver. Não havia nada. Nem tempo.
Deitei-me. O tempo fez-se amostrado instantaneamente, no entanto de uma forma subjetiva. O tempo externo continuava inexistindo. Explodiu-me à cabeça um turbilhão amorfo de imagens e sons. Ocorreu-me que minha essência toda se havia descido aos pés quando do meu assento à beirada do leito. A verificação foi evidente: tornei a assentar-me. Novamente me veio a brancura. E a resignação. Tive certeza. Deitei-me outra vez. Ri-me.
Lembrei-me da garota. Esqueci-me de nosso encontro. Levantei-me então. Senti toda a minha consciência escorrer-se para os meus membros inferiores e depois esvair-se pelos meus calcanhares, ganhando o chão, em poças. Percebi-me pisando-as. Percebi-me parte de um tropel, como que eu fosse não apenas uma, mas várias existências, rumando ao banheiro. A partir daí não havia constituição de memória. A sensação de vazio quando da minha entrada no banho é que me fez constatar que o que era vivido era imediatamente apagado. E banhar era como deitar: esclarecedor.
Ouvi a porta. Constituiu-se um tempo externo então. Era ela. Saí pingando. Dessa vez água, porém. Era engraçado o efeito que surtia em mim a presença de outro alguém. Apoderava-se da minha carcaça uma personalidade restrita. Ela bateu novamente. Eu respondi então e logo em seguida fui encontrá-la.
- Estava no banho? – ela perguntou-me após o beijo.
- É o que parece.
- Ríspido.
- Não…
- Sirva-me de vinho.
As pessoas têm uma tendência nata de mal interpretar outrem dando o pior dos sentidos ao que foi dito. Eu era vítima constante disso.
Enchi dois cálices de vinho e voltei a ela:
- Aqui está. – eu disse entregando-lhe a bebida.
- Seco.
- Você gosta.
- Eu quis ser ambígua.
- Eu também.
Ela adorava que não lhe dessem atenção, apesar de se fingir ofendida. E ser ambígua também.
- Preciso me sentar. E você? – eu convidei.
- Sim.
A sensação de peso nos meus pés era atordoante. E engraçada. Acabei por deitar-me. Ela igualmente.
- Conheci uma garota no ônibus.
- Conheceu? – ela desconfiou.
- Sim. Na verdade não.
- Como?
- Algo nela me chamou a atenção.
- O que exatamente?
- Uma independência. Auto-suficiência eu diria. Autismo talvez.
- Algo patológico?
- Não consigo julgar.
- Vocês conversaram?
- Não muito.
- Algo mais? – ela desconfiou novamente.
- Não.
Emudecemos por um período breve.
- Não me convence que somente isso tenha constituído pauta para um assunto.
- O que quer dizer?
- Quiçá tenha algo mais.
Não havia. Talvez até sim, mas não da maneira como ela pensara. Eu poderia replicar. Deveria. Mas preferi não. Seguiu-se outro silêncio. Agora não tão breve. Era quase noite e isso me era deprimente. Vinha-me um afã à garganta, eu queria falar, quem sabe escrever sobre o anoitecer, mas algo me impedia. Talvez o labor, o fato de se dedicar, despender algum tempo moldando e formalizando meu imaginário em escrita me era nauseante e isso também me incitava a alguma manifestação de ordem comunicativa. Era-me necessário extravasar sobre aquela falta de vontade de extravasar. Ela rompeu com a nossa mudez então. Usei disso para fazer-me interrompido. Como pretexto para afastar aquela inquietação.
- Você não se vai defender? – ela indagou.
- Não.
Ela criara uma espécie de julgamento direcionado pelos valores inerentes a ela mesma, tomando um fato fictício como elemento a ser julgado. Está certo que a minha negativa não colaborou muito com a elucidação do que realmente havia ocorrido. Deu-se outro momento silente, menos tenso que os outros. Tornara-se indiferente. Sem mais, ela levantou-se da cama e partiu, sem despedir-se ou olhar pra trás. Algo não estava certo ali, eu pensava. Eu me afeiçoara, de certo modo, a ela, apesar do nosso relacionamento nada usual. Pensei em intervir na ida dela. Sabia que não haveria volta. No entanto permaneci deitado. As imaginações fluindo livres pelo meu corpo todo. Havia ainda aquele desassossego quanto à carência de iniciativa.
Meu âmago ia dando à luz certa espécie de fome. Meu amigo. Era como se algo dentro de mim, que não parte minha, estivesse a se movimentar. Um rebento talvez. E se ia a manifestar num crescendo hipnotizante. Era uma fome, tive certeza. Algo sequioso de consumo. Eu não sabia com o que saciar aquele apetite. O imaginário ainda percorria a minha carcaça toda. A urgência de alimento se fazia material, como que outra pessoa interna ao meu corpo estivesse faminta. E dado que eu não ideava como satisfazer esse desejo, ele me ia devorando numa antropofagia de dentro pra fora. Eu desesperava-me. Sentia uma dor lancinante. E então me ocorreu a solução. Desnudei-me. Sentei-me à beira da cama. Meus pensamentos se iam canalizando para os membros inferiores. Fiquei de pé. Com as unhas rasguei-me as dobradiças das pernas e com as mãos em concha recolhi todo o líquido que escorria: uma mistura de sangue e alma. Pus-me a bebê-lo. A fome se acabou de imediato. Eu continuava em pé. Aquela deficiência de energia se fez prontidão. Escrevi nas paredes do quarto com a mesma tinta rubra que usara para satisfazer-me. Escrevi até a completa exaustão do meu ser, das paredes e da tinta.
Do circuito de pouca consciência que me havia restado ouvi a porta. Constituiu-se uma fome externa. Era ela. Rumei pingando em direção ao reencontro, dessa vez sangue, porém. Era engraçado o efeito que surtia em mim a presença de outro alguém. Resolvi não atender ao chamado. Preparei-me um pão com mel ouvindo-a invocar minha presença. Fiquei feliz de constatar que havia tido uma volta. Deitei-me ao leito. Dormi.
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Praticamente um parnasiano!!!
Texto muito bom!
Parnasiano não, cuidadoso e escreve lindamente!