Poema Para Ler No Supermercado

19Nov11

I.

Perturbar com o meu corpo de paisagens surdas
O nome frio e novo da árvore que fora lavrada.
Hoje fez tremer de júbilo a minha voz
Um homem que dizia os números dele a uma mulher.
Hoje quero a minha voz dentro da chuva
E um doce matinal de penas e lixívia.
Não quero falar das bocas infensas e encardidas
E nem da terra aguardadora e hialina como um amor.
Hoje quero perturbar com o meu nome de paisagens
Surdas o corpo frio e novo da árvore que fora lavrada.
 
A cabeça vulgar e parda do lobo irrompendo da areia:
Hoje um homem que dizia os números dele a uma mulher fez nascer
Da teimosia e do suicídio um poema risonho ou uma criança antiga.
 

II.

Como um velame que saísse da voz,
Deram-me a geometria dos gestos:
A virgindade do trigo e a volúpia nos nós
Do pão – o aroma a pão dormindo nos restos
Do homem, nos braços lenhosos
Do homem (tinha este homem
Um nome de pedra e sal e forçoso
Ensinou-me a mudez). O forâmen
Brilhando seco na cabeça do lobo:
 
Até hoje me faltara paciência.
Até hoje.
 
Este poema demora uma vida,
E o rosto vincado
Na cabeça dele diz
Imobilizado:
Deixa que o vento ocupe o espaço urgente de palavra
Que rebenta dos teus passos esfaimados.
 
Dizer a uma mulher os meus números.
 
Até hoje eu escrevera um tronco apenas.
Até hoje.
Hoje um homem que dizia os números dele a uma mulher fez nascer
Da teimosia e do suicídio um poema risonho ou uma criança antiga.


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