Arranjos

24Jan12
Dizer o acaso – dizer a vida –, mas dizer.
Inventar os arranjos, dizer os rostos,
Fermentar os ossos do poema, revelá-los simples:

Toda a hipocondria – arranjo repleto geral,
Outro poema: cavalos quebrados –
E toda a ternura, a carne do gesto.

A cabeça da palavra: Herberto Helder
Qual uma península na dança.
A secura que se surripia ao azinhavre;
Uma cabeça de robustez: bisão
Ou outro número.
Toda a hipocondria
Do homem e toda a
Ternura do homem,
A boca da terra
Metida dentro
Dum receptáculo plástico, alto,
Um sismo de seio e umbigo lisos, plangentes –
Toda a miséria metida dentro
Duma prenda,
Com o leite e o esperma numismáticos, parados.
Toda a humanidade
No vazio da dança peninsular,
Nos flancos do temor e da cortesia,
Toda a humanidade
Metida dentro duma criança –
Enxovalhado metal de carne.

Arranjo cerrado: o poema humano, sanguíneo,
Toda a alegria que se pode usurpar à morte,
No quente dentro da pele.
Toda a alegria – pretensa, cegada, urgente: bóson de Higgs.

Arranjo médio: na ilha de Fårö, uma sílaba – um lobo.
A luz ejacula: outro poema: o fotograma: aposição: parataxe:
Dizer a morte sem nome. Toda a hipocondria
E toda a ternura. O poema está. Jamais será.



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