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	<title>maxwell's silver hammer</title>
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	<description>o peso do veredicto</description>
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		<title>maxwell's silver hammer</title>
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		<title>A Pedra De Judas, parte II</title>
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		<pubDate>Sat, 31 Oct 2009 04:57:20 +0000</pubDate>
		<dc:creator>yerblues</dc:creator>
				<category><![CDATA[monológica]]></category>

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		<description><![CDATA[A vida conjugal toda ela esperara que o marido lhe satisfizesse as necessidades e, simultâneo, correspondesse-lhe às expectativas. As possibilidades eram poucas e o resultado é que o marido não satisfazia e nem correspondia, ia tratando a mulher como podia; engolia a rabugem dela como fosse ingratidão: encerrava-se em um seu casulo, visto que não [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=yerblues.wordpress.com&blog=1309436&post=112&subd=yerblues&ref=&feed=1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><br /><p><strong>A vida conjugal toda ela esperara que o marido lhe satisfizesse as necessidades e, simultâneo, correspondesse-lhe às expectativas. As possibilidades eram poucas e o resultado é que o marido não satisfazia e nem correspondia, ia tratando a mulher como podia; engolia a rabugem dela como fosse ingratidão: encerrava-se em um seu casulo, visto que não sabia como alcançá-la. Ela exacerbava-se, julgava o silêncio dele como frialdade e dizia-lhe impropérios às costas; quando da presença dele, tratava-o com uma aspereza insigne, fingia-se surda e muda até, o que servia de tijolo para o invólucro. O diálogo era parco. Em verdade, era como fossem dois monólogos. E assim ia: ele cada vez mais envolto em crisálida, refugiado, ela cada vez mais arredia, e, agora, fazia-se ingrata de fato e por meio de um histerismo desesperado que expelia, em cusparadas, disparates explícitos. Ressalte-se que o tempo cuidava para que os caracteres se fossem transparecendo aos atos, posto que as injúrias fossem gradativamente sendo perfeitamente expressas. Pegue-se dela a histeria mesmo, como exemplo, que se manifestava antes ao privado e de forma desordenada e que se foi direcionando, por via de um feixe único e preciso, ao cônjuge, e se foi expressando aquela ingratidão propositada. E aqui, por parte dele, diz-se que a indiferença idealizada pela esposa era concreta; o casulo era pleno. Em resumo, ela pensava e procurava uma coisa, ele entendia e dava outra, tudo sem retificações, tudo arrumado, ou desarrumado, de modo a progredir tragicamente; era a necessidade que cada um havia em ver-se, a si próprio, manifesto em outrem, na maioria das vezes no cônjuge, e, destarte, a necessidade que cada um havia em esperar que as reações alheias fossem como as próprias. </strong></p>
<p><strong>Houve o dia, então, em que a lagarta mansa fez-se em borboleta revolta; o rumor das asas era tanto demasiado e imponente quanto fora repentina a mudez da mulher, surpresa por aquela metamorfose. Os tijolos que a esposa fornecera para a construção do casulo, aqui rompidos em pedriscos, foram usados contra ela; ele enchia as mãos e a boca, o mais que podia, e atirava. Ela ouvia. Os olhos arregalados de espanto logo se puseram oblíquos de lágrimas. Ele dizia dos esforços que despendia em mantê-la abrigada, alimentada e asseada, ela replicava dizendo que era pouco compreendida. Logo vinha a reprimenda dele acerca da ingratidão dela e um silêncio. Ela recompusera-se para igualar o tom do marido: berravam como duas bestas. Os rumos que a discussão tomava eram nublados, obscuros como o propósito daquilo tudo. O enlace, dizendo-se a verdade, era confuso; e isto, a propósito, foi pauta de discussão. Por que se haviam casado? Foi lembrado que de começo tudo correra bem: ele pacato e de poucas palavras, ela falante e despojada, ambos envolvidos em paixão juvenil. Vendo assim, era fácil prever que se completariam. Sabe-se, portanto, que não. Dada a delicadeza do assunto, o silêncio tornava-se novamente participante daquilo e depois se expirava e os dois recomeçavam o barulho. Ela dizia que ele era indiferente, ele redargüia acusando-a de ingrata. Ela alegava que poderia faltar tudo o que ele lhe comprava se não faltasse a compreensão. Ele explicava que fazia o possível apesar das raras possibilidades; a vida de gatunices não lhe era rendosa o bastante. Ela gritava que não era isso, que ele era um solitário e não a merecia e que lhe bastava ser correspondida. Ele chamava-a ingrata com todo furor, defendia-se dizendo que não cobrava essa tal correspondência e que ela não deveria descontentar-se. E iam e vinham os desagrados, frutos da necessidade do humano de ter o mundo ao redor em imagem e semelhança, de pretender que o próximo, e também o distante, fossem uma coisa só, todos os pensamentos e atos iguais. Aconselha-se, pois, que se deve somente relacionar-se com espelhos! Não que essas fossem conclusões dos esposos. Talvez fosse uma conclusão só dela, advinda da revisita das memórias, considerando a conjuntura atual; era um desses pensamentos embaralhados, os quais vão se formando tímidos, de poucas amostras, desses que só o pensador, intuitivamente, sabe, e que não se pode transformar em palavras. Claro que a morte tinha parte na compaixão que sondava o ideário da mulher; a morte é responsável por motivar a piedade, mesmo que falsa, nas atitudes de quem permanece em vida. </strong></p>
<p><strong>Ela resolvera que o marido não era lá aquele vilão, e que era até bom; não que fosse um santo, pois cruz já havia, mas era bondoso em seu modo, submetera-se a vigarices para abrigar, alimentar e assear a mulher; e se ele aprimorara as habilidades em ladroagem, era na tentativa de agradá-la. Coitado! Não fosse ela, o emprego de marceneiro da época de solteiro bastava para que ele vivesse. Não fosse o descontentamento dela, ele não teria roubado tão grandiosamente; o carinho dele se dava por meio da moeda! Não fosse ela, quiçá o marido ainda viveria. Minha culpa! Ela pensava. E aqui é mister notar-se que a morte muitas vezes desperta a culpa, mesmo que forjada, como forma de um autoflagelo visando à indulgência. Não fosse ela&#8230; </strong></p>
<p><strong>Não fosse a morte, quiçá ela não se apiedaria. Não que essa fosse uma conclusão dela.</strong></p>
<p><strong>E então a chuva; veio um tanto quente e se foi esfriando. Ela observava: a terra já não era árida. Permitiu-se o pranto, pois. Resignou. Ademais, eram todos mortos ali. E mesmo que não fossem, as lágrimas passariam facilmente por chuva.</strong></p>
<p><strong> </strong></p>
<p><strong>- De que me servem, malditas,</strong></p>
<p><strong>Estas lágrimas? E a pena?</strong></p>
<p><strong>De que se servem, famintas,</strong></p>
<p><strong>Estas moscas? E o contrário?</strong></p>
<p><strong>O que são estes valores</strong></p>
<p><strong>Meus, e esta cólera e ânsia,</strong></p>
<p><strong>Senão forjados e em alheia</strong></p>
<p><strong>Reação baseados? Como?</strong></p>
<p><strong>De que vale o egoísmo</strong></p>
<p><strong>Fartando-me e a plenitude?</strong></p>
<p><strong>Esta busca que não cessa,</strong></p>
<p><strong>Por felicidade? Fado!</strong></p>
<p><strong>Que é? E embotar o pranto?</strong></p>
<p><strong>E doar-me a outrem? Não há fim.</strong></p>
<p><strong>De que me serve um marido</strong></p>
<p><strong>Morto? E um vivo? Vivo?</strong></p>
<p><strong>O que distingue da vida</strong></p>
<p><strong>A morte, senão um fim?</strong></p>
<p><strong>E estes queixumes? Por quê?</strong></p>
<p><strong>De que me sirvo? E valho?</strong></p>
<p><strong>Sou Pedra. Sou chuva. Sim.</strong></p>
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		<title>A Pedra De Judas, parte I</title>
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		<pubDate>Sat, 31 Oct 2009 04:40:50 +0000</pubDate>
		<dc:creator>yerblues</dc:creator>
				<category><![CDATA[monológica]]></category>

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		<description><![CDATA[Ela se ia; não sabia se procurava por aquele, ou se contentava com qualquer um: toda aquela esqualidez era de confundir. E como fosse um daqueles, estacou. Ensaiou pranteio, de cansaço e privação.  Conteve-se logo, posto que ninguém ali a atenderia. E também que não havia derramado lágrima até então. Não seria agora que o [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=yerblues.wordpress.com&blog=1309436&post=108&subd=yerblues&ref=&feed=1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><br /><p><strong>Ela se ia; não sabia se procurava por aquele, ou se contentava com qualquer um: toda aquela esqualidez era de confundir. E como fosse um daqueles, estacou. Ensaiou pranteio, de cansaço e privação.  Conteve-se logo, posto que ninguém ali a atenderia. E também que não havia derramado lágrima até então. Não seria agora que o faria. Contribuir com a aridez daquela terra, tampouco. Pois sim, tudo o que lhe se fizesse externo seria árido, pálido como os condenados, cálido de sofreguidão tal qual aquele chão de tanto sangue. Tornara-se, ela, uma rocha.</strong></p>
<p><strong>Pensou em apelar para o divino. Mas qual seria a divindade das rochas? Desistiu logo, não obstante ela percebeu-se. Esperaria. Já estacara; agora, considerando sua condição de pedra, aguardaria.</strong></p>
<p><strong>Às margens da estrada, por toda a sua extensão, jaziam os corpos em cruzes de mais de um milhar de desgraçados. Pálidos, gélidos e desnudados. Ela jazia na via mesmo, não em cruz, mas tão desgraçada quanto todos, não em morte, mas em vida. Nem tanta vida.</strong></p>
<p><strong>Fazia calor, e muito. De ensandecer. Mas o que era são? Ela se perguntava.</strong></p>
<p><strong>Aquela abstinência irrestrita inspirava-lhe reconforto. Reparou que todos ali esperavam, braços abertos, pelo que se lhes fosse imposto pela morte. Note-se que a maioria já gozava de certa putrefação, que era variável em maior ou menor grau. O fedor não era importuno a ela, que já se sentia parte daquela terra cálida, daquele silêncio gélido, daqueles olhos pálidos. Via um irmão em cada miserável daquele, e aqui, reiterou sua qualidade de pedra: abriu os braços. Eram todos rochedos. Esperando. </strong></p>
<p><strong>Sentiu, bem lá no âmago, que se iam embrulhando uns sentimentos, que se iam agregando, tomando forma. Vazou-lhe então uma lágrima: apanhou-a antes que chegasse ao solo. Contribuir com a aridez daquela terra, jamais! Tudo o que se lhe fizesse interno seria haurido, polido de menosprezo, calado como os condenados. Ela era pedra! Ajoelhou-se. Lembrou-se do motivo pelo qual estava ali. Contemplou o silêncio que pairava encimado no lugar, detendo nos braços, como filhas que eram, as respostas. Levantou-se, dirigiu-se a uma das cruzes, pegou do pé de um dos penados então, e pôs-se a interrogá-lo, visto que ele encerrava em si grande quantia de silêncio; percebeu-o tépido, ao contrário do que aparentava toda aquela mortandade. Entendeu a nudez e desnudou-se também. Não que a ela importasse a sanidade, mas é que a quentura incomodava deveras. O crucificado, por sua vez, nada disse. Talvez fosse a pergunta; não que a ela importasse a morte, mas lhe ocorreu, pois, que não sabia se havia inquirido de fato, ou se só havia feito menção. Logo, testou a feitura da questão, se era em voz sonora, e certificada, dirigiu-se ao dependurado:</strong></p>
<p><strong> </strong></p>
<p><strong>- Tu que te pões pingente nessa cruz,</strong></p>
<p><strong>Diz-me, pois: viste o meu cônjuge atado?</strong></p>
<p><strong>Sei que ontem o trouxeram, ainda ia luz,</strong></p>
<p><strong>Certo é que o sol tinha-se vexado,</strong></p>
<p><strong> </strong></p>
<p><strong>De alumiar mais um que era pregado,</strong></p>
<p><strong>Mas sucedia lume qual conduz,</strong></p>
<p><strong>Sempre, a quem a alma se lhe reduz.</strong></p>
<p><strong>Tu, aí de cima, não o tens visado?</strong></p>
<p><strong> </strong></p>
<p><strong>Terminada a inquirição, ela reparou que a voz saíra mais sonora do que desejara. Um tanto esganiçada também, e suplicante. Riu-se do descontrole, e aqui soltou o pé do pobre crucifixo. Mirou-o nos olhos, esperando, como pedra que era: o silêncio daquele era hermético por demais. Decidiu-se por tentar com outro. Voltou-se ao desgraçado pregado imediatamente à esquerda. Testou a sonoridade da voz novamente e enfim:</strong></p>
<p><strong> </strong></p>
<p><strong>- E tu, pobre vizinho, o que diz?</strong></p>
<p><strong>Ouviste a prévia questão? Viste o esposo?</strong></p>
<p><strong>Descrevo-lho então: não era infeliz,</strong></p>
<p><strong> </strong></p>
<p><strong>Tampouco o oposto. Era assim cioso:</strong></p>
<p><strong>Pouco havia e o fingia grandioso,</strong></p>
<p><strong>Era isto o seu paço, que lhe ia ao nariz.</strong></p>
<p><strong> </strong></p>
<p><strong>E aqui percebera que dissera muito: ela conviera que, dos vícios do marido, nada mais diria; certa forma de expiação, e respeito ao falecido. Pediu um perdão silente, não sabia certo a quem, e viu, árida, pálida e sôfrega, que não lhe havia remissão. Olhou-se desnudada: haurida, polida e calada; era, tanto quanto todos ali, condenada. Note-se que lhe carecia cruz. De madeira, digo. Era certo que o parceiro muitas vezes lhe fora um suplício, mas não se podia fazê-lo demérito. Fato é que sempre se valoriza mais o que não se faz, e não o que é feito; é nisto em que ela se fazia crucifixa. </strong></p>
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			<media:title type="html">mean mr. mustard</media:title>
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		<title>Estático</title>
		<link>http://yerblues.wordpress.com/2009/10/14/estatico/</link>
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		<pubDate>Wed, 14 Oct 2009 07:33:18 +0000</pubDate>
		<dc:creator>yerblues</dc:creator>
				<category><![CDATA[the inner light]]></category>
		<category><![CDATA[versos perdidos]]></category>

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		<description><![CDATA[ 
É estrito, explícito. Tese,
Depois síntese e então, digo enfim,
Vem a antítese. Penso.
Vejo; vai-se vazando por um ralo,
É estreito; primeiro se agüenta
O mais que pode a fase inicial,
Depois passa zunindo à próxima,
Com estrépito. Esta segunda
Tem intrínseca a espera; quão áspera!
Quão severa é! Vai-se vivendo,
A vaidade assegura o senso
Ou a falta dele. Faz-se avistar,
Lá ao longe, [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=yerblues.wordpress.com&blog=1309436&post=98&subd=yerblues&ref=&feed=1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><br /><p><strong> </strong></p>
<p style="text-align:center;"><strong>É estrito, explícito. Tese,</strong></p>
<p style="text-align:center;"><strong>Depois síntese e então, digo enfim,</strong></p>
<p style="text-align:center;"><strong>Vem a antítese. Penso.</strong></p>
<p style="text-align:center;"><strong>Vejo; vai-se vazando por um ralo,</strong></p>
<p style="text-align:center;"><strong>É estreito; primeiro se agüenta</strong></p>
<p style="text-align:center;"><strong>O mais que pode a fase inicial,</strong></p>
<p style="text-align:center;"><strong>Depois passa zunindo à próxima,</strong></p>
<p style="text-align:center;"><strong>Com estrépito. Esta segunda</strong></p>
<p style="text-align:center;"><strong>Tem intrínseca a espera; quão áspera!</strong></p>
<p style="text-align:center;"><strong>Quão severa é! Vai-se vivendo,</strong></p>
<p style="text-align:center;"><strong>A vaidade assegura o senso</strong></p>
<p style="text-align:center;"><strong>Ou a falta dele. Faz-se avistar,</strong></p>
<p style="text-align:center;"><strong>Lá ao longe, o oposto; eu penso:</strong></p>
<p style="text-align:center;"><strong>Vejo. Rumo a ele, passeio.</strong></p>
<p style="text-align:center;"><strong>Cada passo faz mais clara a vista.</strong></p>
<p style="text-align:center;"><strong>Segue assim: vão convivas as formas,</strong></p>
<p style="text-align:center;"><strong>Predomina uma e adiante se igualam,</strong></p>
<p style="text-align:center;"><strong>Dessa maneira ficam, porém</strong></p>
<p style="text-align:center;"><strong>Não se bastam e tarda a revolta;</strong></p>
<p style="text-align:center;"><strong>Fato é que se não sabe quando,</strong></p>
<p style="text-align:center;"><strong>Como e qual, de verdade. Admito.</strong></p>
<p style="text-align:center;"><strong>É pretenso um acordo e aceitar</strong></p>
<p style="text-align:center;"><strong>É de praxe. Pertenço a uma, e à outra;</strong></p>
<p style="text-align:center;"><strong>Ás duas. Olho lá uma, tímida,</strong></p>
<p style="text-align:center;"><strong>Digo até mesmo tépida, trépida</strong></p>
<p style="text-align:center;"><strong>E temida; eu temo sim! Ela,</strong></p>
<p style="text-align:center;"><strong>A mudança; vem próxima quando</strong></p>
<p style="text-align:center;"><strong>É notado um apêndice ali,</strong></p>
<p style="text-align:center;"><strong>Junto ao modo atual de se viver,</strong></p>
<p style="text-align:center;"><strong>E desse modo mesmo, com pejo;</strong></p>
<p style="text-align:center;"><strong>Todavia é fingido e, portanto,</strong></p>
<p style="text-align:center;"><strong>Se é ele avistado, que seja,</strong></p>
<p style="text-align:center;"><strong>Não importa de qual for o jeito,</strong></p>
<p style="text-align:center;"><strong>Percebido, aposte; retorno,</strong></p>
<p style="text-align:center;"><strong>Não há. Nesse momento se sente</strong></p>
<p style="text-align:center;"><strong>Pênsil, pueril, porém há um vasto</strong></p>
<p style="text-align:center;"><strong>E bem fixo vazio, horrível</strong></p>
<p style="text-align:center;"><strong>Sensação de reinício. Vontade</strong></p>
<p style="text-align:center;"><strong>De acabar. É estrito, estreito,</strong></p>
<p style="text-align:center;"><strong>Tal percurso. Espero um percalço,</strong></p>
<p style="text-align:center;"><strong>Um espelho talvez, mas quão áspero</strong></p>
<p style="text-align:center;"><strong>É esse aspecto meu. Então findo.</strong></p>
<p style="text-align:center;"><img class="size-medium wp-image-99  aligncenter" title="DSC00219" src="http://yerblues.files.wordpress.com/2009/10/dsc00219.jpg?w=300&#038;h=225" alt="Estático" width="300" height="225" /></p>
<p><strong> </strong></p>
  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/yerblues.wordpress.com/98/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/yerblues.wordpress.com/98/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/yerblues.wordpress.com/98/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/yerblues.wordpress.com/98/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/yerblues.wordpress.com/98/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/yerblues.wordpress.com/98/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/yerblues.wordpress.com/98/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/yerblues.wordpress.com/98/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/yerblues.wordpress.com/98/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/yerblues.wordpress.com/98/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=yerblues.wordpress.com&blog=1309436&post=98&subd=yerblues&ref=&feed=1" /></div>]]></content:encoded>
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			<media:title type="html">mean mr. mustard</media:title>
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		<title>A Centopéia e a Coruja</title>
		<link>http://yerblues.wordpress.com/2009/09/24/a-centopeia-e-a-coruja/</link>
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		<pubDate>Thu, 24 Sep 2009 09:46:49 +0000</pubDate>
		<dc:creator>yerblues</dc:creator>
				<category><![CDATA[monológica]]></category>

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		<description><![CDATA[“Sim”, repliquei a princípio. E era só.
Eu pensava em como um sentimento puro e infantil podia variar disso a algo confuso e adulto e então questionava; “o que estou fazendo?”. Eu sequer sabia o que era. 
E a observava, a coruja. Cada pio seco e rouco me dava calafrios. “Sim”, eu dizia sentado. A vontade [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=yerblues.wordpress.com&blog=1309436&post=96&subd=yerblues&ref=&feed=1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><br /><p><strong>“Sim”, repliquei a princípio. E era só.</strong></p>
<p><strong>Eu pensava em como um sentimento puro e infantil podia variar disso a algo confuso e adulto e então questionava; “o que estou fazendo?”. Eu sequer sabia o que era. </strong></p>
<p><strong>E a observava, a coruja. Cada pio seco e rouco me dava calafrios. “Sim”, eu dizia sentado. A vontade era de deitar-me ao chão. Não me ocorria nada mais; e então levantei e andei de cá pra lá. Era alguma cólera o que me movia. Olhei-a novamente; aqueles olhos! Eu quis; isto era fato. Todavia pensava: não posso. Aquele pio grave e gélido me tiraria o sono algum dia. Quanto medo!</strong></p>
<p><strong>Assentei-me, pois, outra vez. Era obstinação: desta vez, portanto, só o que alcancei foram os pés. Os pés da coruja. Daí pronunciei; “não”.  Eu era ainda uma criança, ora. Quanta resignação&#8230;</strong></p>
<p><strong>Aquele pássaro; mirava-o lá, tão belo e evasivo. Sabia que aproximar-me resultaria em fuga certa. Era leve, ou ao menos parecia, longe. Sugeria requinte, e em réquiem impassível, piscava os olhos vagarosos, brandia em gracejo uma asa. Resisti. Insisti! “O que estou fazendo?”</strong></p>
<p><strong>A coruja mostrou-se dócil; não moveu pena sequer. Milagre? Malogro! Evitou-me, virou a cabeça hirsuta a qualquer canto. E pareceu-me não timidez, mas desprezo. Foi quase erótico o movimento; herético, diria; “como podia?”</strong></p>
<p><strong>Enganei-me. Voltei ao assento. Não a olhei. Ative-me ao chão. Veio outro pio; dessa vez, portanto, quis eu julgá-lo burlesco, até ri-me. Mas era dissimulação. Aqueles calafrios&#8230; A ave resistiu. Insistiu num chio tremido que eu entendi choroso, contrito. Quanta pena! Fitei-a bem nos olhos; ela dizia sim. Eu preferi abster-me.</strong></p>
<p><strong>Serpenteava em minha direção outra figura; cuidei de botar-me vulnerável. Não tardou um fascínio, mesmo que inventado. O corpo era esbelto e deslizava a totalidade de sua extensão com cautela, um primor calculado que me convenceu do encantamento. E era como duas: ela em cima e a sombra idêntica logo abaixo, naquele espelho de chão. O rastejo colaborava com tal efeito. E ela, essa outra, pretendia a mim. Vendo-a por detrás, lembravam-me as suas pernas, uma esteira. Quanta precisão! Eu sabia o que era; senti-me aquiescido, apaixonado. E a observava, a centopéia.</strong></p>
<p><strong>Antes que a miriápode se apresentasse a mim plenamente, houve um grito. A coruja! De imediato vi; “é uma tragédia”. Apressei-me em imaginar um esconderijo que atendesse ao pobre ser rastejante e quando da urgência sumiram-se as duas; a centopéia e a coruja.</strong></p>
<p><strong>“Sim”, repliquei a princípio, mas não era só. Eu sabia que a ave voltaria e traria incorporada a outra. Engasguei certo choro. Dei-me ao sonho. Decidi esperar.</strong></p>
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		<title>Polução</title>
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		<pubDate>Thu, 17 Sep 2009 04:40:39 +0000</pubDate>
		<dc:creator>yerblues</dc:creator>
				<category><![CDATA[outros contos]]></category>

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		<description><![CDATA[Magra. O rosto magro. Havia olheiras; sutis que, no entanto, asseveravam-se freqüentes, bem delineadas. Os olhos eram bem pretos à noite, não se via pupila, era só o negro e nada mais. Pela manhã eram mais claros. Ao cair da tarde eram de um quase verde bastante bonito, bom de admirar. Ela movia-se de maneira [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=yerblues.wordpress.com&blog=1309436&post=92&subd=yerblues&ref=&feed=1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><br /><p><strong>Magra. O rosto magro. Havia olheiras; sutis que, no entanto, asseveravam-se freqüentes, bem delineadas. Os olhos eram bem pretos à noite, não se via pupila, era só o negro e nada mais. Pela manhã eram mais claros. Ao cair da tarde eram de um quase verde bastante bonito, bom de admirar. Ela movia-se de maneira plena, o quadril cuidava com maestria do equilíbrio e dividia, notadamente, o corpo em dois; a parte de cima era bem ereta, garbosa, às vezes empolada até. A parte de baixo, adjunta à anca, ia-se meneando, de forma que quando chegava ao extremo de um lado, descrevia um movimento circular e voltava ao eixo; destarte, havia sempre um momento em que o corpo todo se alinhava único, perfeito, reto. O cabelo era grosso, curto, negro como os olhos anoitecidos: ele se atinha demoradamente em afagos. Vez em quando a duas mãos, emendava os fios em tranças pra desfazê-las e refazê-las depois, incessantemente. Ele pensava nela; fato é que o contato entre eles se dava essencialmente ao fim do dia, os olhos dela do quase verde ao negrume, ademais, acontecia de encontrarem-se vez ou outra após o almoço, daí pauta para o imaginário ao decurso do período em que não estavam. E quando estavam, atavam-se desesperadamente, conversavam e silenciavam demasiado, olhavam-se, perscrutavam-se, acarinhavam-se. Apartar era dorido. E então ele pensava; como era vistoso o passear dela, como eram magnéticos os olhares e as sardas que se pintavam logo abaixo deles, não havia pintas sempre. E o cabelo; longo, doirado do sol, beirando ao verde, quase espelho do quase verde dos olhos. Ele pensava; quando distante não distinguia bem a face dela, nem a voz; não conseguia lembrá-las. Certamente variavam as memórias; a título de exemplo, as segundas comumente ela lhe falava grave, as terças era um pouco mais aguda. Isso quando das recordações. Ao se reencontrarem ela era uma só. E ele.</strong></p>
<p><strong>Certas vezes, quando juntos, ele se via, mãos dadas a ela, mas era como fosse espírito: observava do alto. E se demorava piscando, mantendo os olhos cerrados, verificando a estranheza do caso. Não adiantava. O tempo se encarregava de que ele se acostumasse e iam os dois, na verdade três. O outro lá embaixo agia independente e ele, encimado, certificava-se; eram a mesma pessoa, entretanto. Era bela a vista. O casal. Ele; ele mesmo. Ela; alta, projetando uma sombra que se encompridava como cauda conforme ia andando ao luar, a boca rosada e fina se movendo graciosa em palavras que dali de cima ele não compreendia, mas lá embaixo replicava apreciando cada som que ela emitia. Num momento seguinte estavam à alcova; ele recobrara o corpo, que se aleitava agora, e a olhava com a cabeça apoiada molemente pelo queixo, nas mãos. Ela retribuía risonha, de dentes branquíssimos e lindos, o cabelo vermelho-fogo de fios que se avultavam vivos aqui e ali e crepitavam retinindo pelo ambiente, um som indescritível, sonífero.</strong></p>
<p><strong>Acordar era dorido. Restava o cheiro dela. E ele pensava.</strong></p>
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	</item>
		<item>
		<title>Três Pausas</title>
		<link>http://yerblues.wordpress.com/2009/09/09/tres-pausas/</link>
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		<pubDate>Wed, 09 Sep 2009 08:09:21 +0000</pubDate>
		<dc:creator>yerblues</dc:creator>
				<category><![CDATA[estréia]]></category>
		<category><![CDATA[monológica]]></category>

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		<description><![CDATA[
Ela não sabia por onde começar. Talvez pelo céu, pensou. E foi assim: era um bem bonito; apresentava-se em partes, três, sendo a primeira maior e de um azul nuançado que começava escuro em cima e se findava bem claro, ou alguma coisa assim. Certo é que logo abaixo havia nuvens, ralas, que cuidavam de [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=yerblues.wordpress.com&blog=1309436&post=87&subd=yerblues&ref=&feed=1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><br /><p><img class="size-medium wp-image-90 alignright" title="O Segundo Céu" src="http://yerblues.files.wordpress.com/2009/09/dsc00152.jpg?w=300&#038;h=225" alt="O Segundo Céu" width="300" height="225" /></p>
<p><strong>Ela não sabia por onde começar. Talvez pelo céu, pensou. E foi assim: era um bem bonito; apresentava-se em partes, três, sendo a primeira maior e de um azul nuançado que começava escuro em cima e se findava bem claro, ou alguma coisa assim. Certo é que logo abaixo havia nuvens, ralas, que cuidavam de dividir aquela abóbada, marcando a transição de cores. Vinha então um rosado tímido que se entremetia num alaranjado fulgurante, e os dois se iam fundindo até quase o solo onde se tornavam um, em profundidade, de maneira que o horizonte aparentava um dobrado côncavo evidenciado por um restolho de céu que se repetia em azul e punha-se imediatamente após a fusão bicolor emendando-se, finalmente, ao chão lá longe. O sol estava lá e era como não; o que de fato importava era aquele quadrado de céu que ela vislumbrara. Retificou depois, temendo ter sido presunçosa: não se pode menosprezar assim o sol! Aquela parte de firmamento e todo o resto e o vislumbre eram possibilitados pelo astro. Ensaiou retificar novamente por conta da obviedade; não o fez, porém. E parou. Engendrava agora uma forma de encaixar o cachorro. Vacilou algum tempo. Tamborilou. Achou-se ridícula e previsível. Decidiu-se por contar, somente. Sem encaixe. Lembrou de algo que presumia ser importante ao texto; um prédio. Descascado, carcomido, embolorado e que remetia à infância dela. Era bem bom de observar, aquele prédio. Lembrou também que havia coisas mais, coisas que ela deveria ter anotado quando da imaginação ou memória e que não anotou e que se perderam. Deixou passar então, o prédio e as coisas. Voltou ao cachorro; lembrou-se novamente do céu, um outro agora, que se recompunha da chuva, bastante bonito e frágil. Chovera por demais, e o cão decerto se abrigava ali; jazia quase dormindo, ou quase acordando. O lugar era bastante freqüentado e quente, cheirava a café, bastante requentado e freqüente. E ela esperava. Resolveu-se, pois, por acarinhar com um dos pés o bicho. Resultado é que ele assustou-se e precipitou-se numa quase mordida. Solução foi compartilhar a merenda: uma compensação. O cachorro abocanhou ao ar o pedaço. Ela distanciou-se pretendendo um assento, certa de que a divisão do pão era expiação suficiente. O animal seguiu-a, no entanto. Sentou-se olhando, bastante cachorro. Ela, também assentada e correspondendo o olhar, atirou outro pedaço, longe. Ele prontamente se foi. Comeu. Coçou-se. E voltou cínico, sustentando uma inocência propositadamente forjada. Ela se riu, cuidou de engolir depressa a comida e de deixar um último petisco que entregou ao cão com cuidado. Ele recebeu, grato e risonho, mais este que aquele, devorou voraz e se foi. Naturalmente. Houve pausa novamente aí; ela pensava em acabar. Veio-lhe o cheiro dele. Não do cachorro, mas dele. Achou oportuno comentar as semelhanças caninas, mas desistiu. O dia em que se conheceram era algo digno de se ser contado. O modo como ele riscava o isqueiro incessantemente desviando o olhar, o modo como ela o encarava nos olhos, ouvindo-o sem assimilar uma única palavra. Esse cheiro&#8230; Era o cheiro que ela sentira quando se cruzaram uma vez. Cheirava a quem tomara chuva e não banho. Ela sentiu saudade, mas sentiu como nunca. Como nunca o tivesse abraçado e beijado. Houve intervalo. Vazio. Cogitou um novo escrito que falasse disso somente; dela e dele. Um outro dia. Pontuou um fim no que escrevia, obrigada.</strong></p>
<p><strong><br />
</strong></p>
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			<media:title type="html">mean mr. mustard</media:title>
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			<media:title type="html">O Segundo Céu</media:title>
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		<item>
		<title>Sobre Um Escritor e o Seu Escrito</title>
		<link>http://yerblues.wordpress.com/2009/09/04/sobre-o-escritor-e-o-escrito/</link>
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		<pubDate>Fri, 04 Sep 2009 09:28:54 +0000</pubDate>
		<dc:creator>yerblues</dc:creator>
				<category><![CDATA[estréia]]></category>

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		<description><![CDATA[Não sei se devo dar-me a tal labuta. É algo que requer muito de mim. No entanto, sinto que não fazê-lo é como abdicar à existência. Não que isso faça algum sentido. Justifico-me: a necessidade de aprazer a mim mesmo está aquém, em sentido de vir primeiro, da facilidade de fazer-me redundante, de permitir-me vulgaridades, [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=yerblues.wordpress.com&blog=1309436&post=83&subd=yerblues&ref=&feed=1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><br /><p><strong>Não sei se devo dar-me a tal labuta. É algo que requer muito de mim. No entanto, sinto que não fazê-lo é como abdicar à existência. Não que isso faça algum sentido. Justifico-me: a necessidade de aprazer a mim mesmo está aquém, em sentido de vir primeiro, da facilidade de fazer-me redundante, de permitir-me vulgaridades, de dizer exatamente o que me vem da cabeça à ponta da língua só para que a clareza do meu discurso esteja garantida. Digo que não explicar é a explicação mais plausível. E seria previsível em alto grau, ao meu gosto, deixar que a linha de raciocínio da afirmação anterior se acabasse no ponto final; sobretudo, a contradição é algo fascinante. Deixo o fascínio dar conta do prumo e repito: não explicar é a explicação mais plausível. Logo ao começo do parágrafo, veio-me o afã: “acabo aqui”. Decerto seria mais fácil. Enfim, evidenciar não é meu propósito primeiro, então me abstenho.</strong></p>
<p><strong>O esforço despendido à formalização do ideário é algo que me tem feito prevaricar. A solução que encontro é escrever sobre o fato de eximir-me desse trabalho. A quantia de idéias que me escapam quando do processo de moldá-las é coisa que deveras me aborrece. Dar forma, porém, é-me essencial. Não digo que me não tenta a possibilidade de somente imprimir o que me é interno. Sinto que meu dever é lapidar. Não sei se devo dar-me a tal labuta. É algo que requer muito de mim. No entanto, sinto que não fazê-lo é como abdicar à existência. Não que isso faça algum sentido. </strong></p>
<p><strong>O que fica entre a idéia bruta e o ato de esculpi-la é poesia. Quando digo que não explanar é razoável, pode soar como pretexto para um embasamento falto. Contudo, o que é que faço agora? Explico-me. E não que eu me importe com a boa continuidade do texto. Não por ora. Trata-se de conveniência. E aqui se faz adequado o momento para começar outro parágrafo. </strong></p>
<p><strong>A necessidade de aprazer a mim mesmo consiste, portanto, em tratar do processo de materialização de um pensamento: da escolha da palavra e sua adequação ao conceito até o ato de corporificar o pensado em escrito. Meu fardo é lidar com esse substrato, o ideário disforme. Não faço menção à predestinação. Ou talvez sim. Fato é que essa lida me faz sentir vivo, existente. Não que isso faça algum sentido. A quantia de idéias que me escapam quando do processo de moldá-las é coisa que deveras me aborrece. E a importunação é tamanha que me faz renunciar. Renunciar a mim mesmo. Conformo-me pensando que existir é justamente decidir que a vida se esvaia sem propósito algum. Pois sim, o escrito é minha vida e coisa que apraz, em se falando de morte, é certificar-me de que o meu ideário é único e que tudo que penso é pensado uma única vez e que eu sou o único detentor de todas essas idéias que se expiram. Mesmo que eu as lapide, haverá sempre o rebarbo; não há formas de reavê-lo. Quiçá seja isso a morte. É um processo natural. Efemeridade é algo fascinante. </strong></p>
<p><strong>A agonia advinda dos processos anteriores à gênese de um texto é coisa que ensandece. É certo que quando se finda o texto e, por conseqüência, a aflição, vem-me o gozo; sublime, entretanto, vem-me também a sensação de que me carece uma parte minha. Sinto que já me repeti por demais, fui vulgar e lapidei pouco o que quis dizer. É oportuna a hora para dizer da analogia entre esse texto e o ato de escrever. Escrever; não sei se devo dar-me a tal labuta. É algo que requer muito de mim. No entanto, sinto que não fazê-lo é como abdicar à existência. E aqui se faz adequado o momento para que eu reconsidere o meu fardo &#8211; sei que não reconsiderarei &#8211; e comece outro parágrafo.</strong></p>
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	</item>
		<item>
		<title>Monólogo</title>
		<link>http://yerblues.wordpress.com/2009/05/30/monologo/</link>
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		<pubDate>Sat, 30 May 2009 20:53:31 +0000</pubDate>
		<dc:creator>yerblues</dc:creator>
				<category><![CDATA[monológica]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://yerblues.wordpress.com/?p=81</guid>
		<description><![CDATA[Sentei-me à beira da cama. Não pensava em nada. Não conseguia. Apoderava-se da minha carcaça uma alvura irrestrita. E uma resignação. Não via motivos para levantar-me. Não via nada. Não havia nada para se ver. Não havia nada. Nem tempo.
Deitei-me. O tempo fez-se amostrado instantaneamente, no entanto de uma forma subjetiva. O tempo externo continuava [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=yerblues.wordpress.com&blog=1309436&post=81&subd=yerblues&ref=&feed=1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><br /><p><strong>Sentei-me à beira da cama. Não pensava em nada. Não conseguia. Apoderava-se da minha carcaça uma alvura irrestrita. E uma resignação. Não via motivos para levantar-me. Não via nada. Não havia nada para se ver. Não havia nada. Nem tempo.</strong></p>
<p><strong>Deitei-me. O tempo fez-se amostrado instantaneamente, no entanto de uma forma subjetiva. O tempo externo continuava inexistindo. Explodiu-me à cabeça um turbilhão amorfo de imagens e sons. Ocorreu-me que minha essência toda se havia descido aos pés quando do meu assento à beirada do leito. A verificação foi evidente: tornei a assentar-me. Novamente me veio a brancura. E a resignação. Tive certeza. Deitei-me outra vez. Ri-me.</strong></p>
<p><strong>Lembrei-me da garota. Esqueci-me de nosso encontro. Levantei-me então. Senti toda a minha consciência escorrer-se para os meus membros inferiores e depois esvair-se pelos meus calcanhares, ganhando o chão, em poças. Percebi-me pisando-as. Percebi-me parte de um tropel, como que eu fosse não apenas uma, mas várias existências, rumando ao banheiro.  A partir daí não havia constituição de memória. A sensação de vazio quando da minha entrada no banho é que me fez constatar que o que era vivido era imediatamente apagado. E banhar era como deitar: esclarecedor.</strong></p>
<p><strong>Ouvi a porta. Constituiu-se um tempo externo então. Era ela. Saí pingando. Dessa vez água, porém. Era engraçado o efeito que surtia em mim a presença de outro alguém. Apoderava-se da minha carcaça uma personalidade restrita. Ela bateu novamente. Eu respondi então e logo em seguida fui encontrá-la.</strong></p>
<p><strong>- Estava no banho? – ela perguntou-me após o beijo.</strong></p>
<p><strong>- É o que parece.</strong></p>
<p><strong>- Ríspido.</strong></p>
<p><strong>- Não&#8230;</strong></p>
<p><strong>- Sirva-me de vinho.</strong></p>
<p><strong>As pessoas têm uma tendência nata de mal interpretar outrem dando o pior dos sentidos ao que foi dito. Eu era vítima constante disso.</strong></p>
<p><strong>Enchi dois cálices de vinho e voltei a ela:</strong></p>
<p><strong>- Aqui está. – eu disse entregando-lhe a bebida.</strong></p>
<p><strong>- Seco.</strong></p>
<p><strong>- Você gosta.</strong></p>
<p><strong>- Eu quis ser ambígua.</strong></p>
<p><strong>- Eu também.</strong></p>
<p><strong>Ela adorava que não lhe dessem atenção, apesar de se fingir ofendida. E ser ambígua também.</strong></p>
<p><strong>- Preciso me sentar. E você? – eu convidei.</strong></p>
<p><strong>- Sim.</strong></p>
<p><strong>A sensação de peso nos meus pés era atordoante. E engraçada. Acabei por deitar-me. Ela igualmente.</strong></p>
<p><strong>- Conheci uma garota no ônibus.</strong></p>
<p><strong>- Conheceu? – ela desconfiou.</strong></p>
<p><strong>- Sim. Na verdade não.</strong></p>
<p><strong>- Como?</strong></p>
<p><strong>- Algo nela me chamou a atenção.</strong></p>
<p><strong>- O que exatamente?</strong></p>
<p><strong>- Uma independência. Auto-suficiência eu diria. Autismo talvez.</strong></p>
<p><strong>- Algo patológico?</strong></p>
<p><strong>- Não consigo julgar.</strong></p>
<p><strong>- Vocês conversaram?</strong></p>
<p><strong>- Não muito.</strong></p>
<p><strong>- Algo mais? – ela desconfiou novamente.</strong></p>
<p><strong>- Não. </strong></p>
<p><strong>Emudecemos por um período breve.</strong></p>
<p><strong>- Não me convence que somente isso tenha constituído pauta para um assunto.</strong></p>
<p><strong>- O que quer dizer?</strong></p>
<p><strong>- Quiçá tenha algo mais.</strong></p>
<p><strong>Não havia. Talvez até sim, mas não da maneira como ela pensara. Eu poderia replicar. Deveria. Mas preferi não. Seguiu-se outro silêncio. Agora não tão breve. Era quase noite e isso me era deprimente. Vinha-me um afã à garganta, eu queria falar, quem sabe escrever sobre o anoitecer, mas algo me impedia. Talvez o labor, o fato de se dedicar, despender algum tempo moldando e formalizando meu imaginário em escrita me era nauseante e isso também me incitava a alguma manifestação de ordem comunicativa. Era-me necessário extravasar sobre aquela falta de vontade de extravasar. Ela rompeu com a nossa mudez então. Usei disso para fazer-me interrompido. Como pretexto para afastar aquela inquietação.</strong></p>
<p><strong>- Você não se vai defender? – ela indagou.</strong></p>
<p><strong>- Não.</strong></p>
<p><strong>Ela criara uma espécie de julgamento direcionado pelos valores inerentes a ela mesma, tomando um fato fictício como elemento a ser julgado. Está certo que a minha negativa não colaborou muito com a elucidação do que realmente havia ocorrido. Deu-se outro momento silente, menos tenso que os outros. Tornara-se indiferente. Sem mais, ela levantou-se da cama e partiu, sem despedir-se ou olhar pra trás. Algo não estava certo ali, eu pensava. Eu me afeiçoara, de certo modo, a ela, apesar do nosso relacionamento nada usual. Pensei em intervir na ida dela. Sabia que não haveria volta. No entanto permaneci deitado. As imaginações fluindo livres pelo meu corpo todo. Havia ainda aquele desassossego quanto à carência de iniciativa. </strong></p>
<p><strong>Meu âmago ia dando à luz certa espécie de fome. Meu amigo. Era como se algo dentro de mim, que não parte minha, estivesse a se movimentar. Um rebento talvez. E se ia a manifestar num crescendo hipnotizante. Era uma fome, tive certeza. Algo sequioso de consumo. Eu não sabia com o que saciar aquele apetite. O imaginário ainda percorria a minha carcaça toda. A urgência de alimento se fazia material, como que outra pessoa interna ao meu corpo estivesse faminta. E dado que eu não ideava como satisfazer esse desejo, ele me ia devorando numa antropofagia de dentro pra fora. Eu desesperava-me. Sentia uma dor lancinante. E então me ocorreu a solução. Desnudei-me. Sentei-me à beira da cama. Meus pensamentos se iam canalizando para os membros inferiores. Fiquei de pé. Com as unhas rasguei-me as dobradiças das pernas e com as mãos em concha recolhi todo o líquido que escorria: uma mistura de sangue e alma. Pus-me a bebê-lo. A fome se acabou de imediato. Eu continuava em pé. Aquela deficiência de energia se fez prontidão. Escrevi nas paredes do quarto com a mesma tinta rubra que usara para satisfazer-me. Escrevi até a completa exaustão do meu ser, das paredes e da tinta.</strong></p>
<p><strong>Do circuito de pouca consciência que me havia restado ouvi a porta. Constituiu-se uma fome externa. Era ela. Rumei pingando em direção ao reencontro, dessa vez sangue, porém. Era engraçado o efeito que surtia em mim a presença de outro alguém. Resolvi não atender ao chamado. Preparei-me um pão com mel ouvindo-a invocar minha presença. Fiquei feliz de constatar que havia tido uma volta. Deitei-me ao leito. Dormi.</strong></p>
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		<title>A Primeira Morte do Escritor</title>
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		<pubDate>Wed, 22 Apr 2009 19:27:44 +0000</pubDate>
		<dc:creator>yerblues</dc:creator>
				<category><![CDATA[outros contos]]></category>

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		<description><![CDATA[Quando da meninice, ele via, de olhadelas entrecortadas de pejo e medo, por detrás das saias da mãe, somente sapatos. Não se arriscava às canelas. Não que nunca o tivesse feito, mas quando o fazia, era acometido de uma tremura tão enérgica que mal conseguia andar. Pegava-se das saias da mãe quase as rasgando. Era [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=yerblues.wordpress.com&blog=1309436&post=77&subd=yerblues&ref=&feed=1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><br /><p><strong><span style="font-size:10pt;font-family:Arial;">Quando da meninice, ele via, de olhadelas entrecortadas de pejo e medo, por detrás das saias da mãe, somente sapatos. Não se arriscava às canelas. Não que nunca o tivesse feito, mas quando o fazia, era acometido de uma tremura tão enérgica que mal conseguia andar. Pegava-se das saias da mãe quase as rasgando. Era a medicina.</span></strong></p>
<p class="MsoNormal"><strong><span style="font-size:10pt;font-family:Arial;">Foi-se crescendo, arriscando-se, sempre de olhadelas bem rápidas e foi-se habituando. Já olhava canelas. Joelhos. Conhecia as pessoas assim. Aí se descobriu. Pôs-se nu certa vez e olhou-se até onde as vistas permitiam, memorizou cada parte de si. Tocou-se. Tocou-se no rosto, primeiro atônito e pressuroso, depois afoito e lento. Encantou-se. Correu-se para o espelho. Evitava-o desde quando se lembrava. Derrapou frente ao objeto. Fitava, disfarçando, o peito refletido. Era um espelho grande, pendurado à parede do quarto da mãe, redondo e de moldura de madeira trabalhada à mão. Subia os olhos baixando-os logo em seguida. Avistou o pescoço. Via-o brotando donde normalmente abotoava-se a gola da camisa. Parecia-lhe despojado, bem solto, quase mole. Então o rapaz subiu, de mais uma fitada, o olhar, mas não o desceu. Demorou-se ao queixo. Como era bem feito o seu queixo! Já lhe nasciam alguns ralos fios de barba. Tocou-os. Fazia-se necessidade raspá-los. Correu alcançar a lâmina e a espuma do pai. Correu voltar para defronte o espelho. Hauriu bem profundo todo o ar que lhe cabia ao peito e encarou-se nos olhos. Como eram belos, de um verde único, nunca dantes visto em sapato ou canela de espécie alguma. Ficou ali, o belo queixo estirado, pendendo, e os belos olhos feitos dois rombos verdes na cara. Esqueceu-se da barba.</span></strong></p>
<p class="MsoNormal"><strong><span style="font-size:10pt;font-family:Arial;">Daí pra diante o tempo fez-se zombaria e a mocidade, toda ela, desabrochou nele de súbito, como estivesse sendo guardada durante os anos que se esvaiam zunindo, como o sujeito tivesse envelhecido de idades, mas não de aparências, e num dado instante, vigorosamente, fosse feito rapaz. Sobrava-lhe ainda um restolho da timidez infante, coisa que ele tratou de findar impondo a si mesmo encarar nos olhos qualquer um com quem topasse. Acabou fazendo gosto disso. Depois se envaideceu. Punha-se bastante confiante num colóquio, observando bem o interlocutor, olhando-lhe nos olhos vez em quando. A barba crescia-lhe ao rosto conferindo certo garbo, ressaltando os olhos verdes. Cumprimentava as moçoilas da vizinhança curvando-se exageradamente e olhando-as nos olhos em seguida. Via-as enrubescerem. Sentia-se bonito.</span></strong></p>
<p class="MsoNormal"><strong><span style="font-size:10pt;font-family:Arial;"> </span></strong></p>
<p class="MsoNormal"><strong><span style="font-size:10pt;font-family:Arial;">Acordava bem cedo, o sol espreguiçando os primeiros raios, e já se ia para o espelho. Penteava os cabelos negros, lavava o rosto e enxugava-o depois com bastante zelo, redobrava a atenção com a barba, também negra. Olhava-se ao espelho novamente antes de vestir o paletó por cima da camiseta de dormir e trocar a calça. Repetia esse processo religiosamente, todos os dias. Ia à padaria, comprava os três pães franceses de sempre e voltava a casa. Encontrava o pai já de pé, esperando-o. Desjejuavam juntos e de pouca conversa. O pai saía e ele voltava ao espelho. Despia-se. Admirava-se. Ia banhar-se então. Demorava-se: pipocavam-lhe milhões de imagens à cabeça, imagens que se iam fazendo turbilhões indistintos de cor e movimento, que o punham em transe, de molho à banheira. E ele se ia dissolvendo ali, as cores saindo pelos orifícios da cara e do corpo em abruptas torrentes e se misturando à água. Depois se fazia uma calmaria. Não tardava, todo aquele líquido condensado revoltava-se em fios espessos e materializava-se em rapaz, cada pausa e revolta como condutores de uma orquestra invisível. Ele voltava a si, sequioso, como a banheira. Sequioso de manifestar-se. Vinha-lhe aí um embaralhado de palavras que precisava ser organizado, disposto de modo a relatar o que havia visto. Vinha também o berro da mãe, noticiando o atraso. Rapidamente ele aprontava-se e saía à rua rumo ao colégio, todo o ideário fugindo-lhe. Certa vez resolveu então anotar as memórias em um dos cadernos escolares: Caminhava escrevendo, vez em quando tropeçando aqui e ali, topando com obstáculos. Nunca havia escrito. Não daquela forma, tão subjetiva, tão introspectiva, tampouco escrevera caminhando. Aderiu muito contente à prática. Não deveria deixar escapar nenhuma imaginação.</span></strong></p>
<p class="MsoNormal"><strong><span style="font-size:10pt;font-family:Arial;">Numa dessas caminhadas, certo acontecido pôs-lhe apreensivo: ele escrevia, como sempre, sobre as jornadas que lhe propiciavam os banhos matinais, já não tropeçava tanto, dado que quando em quando entremetia uma olhadela ao caminho. Isso lhe lembrava a infância não tão distante, as saias da mãe. Entre uma mirada e outra avistou certa silhueta feminina, que já de longe esbanjava graça. Parou com as lapisadas. Aproximou-se. Iria encarar-lhe nos olhos. Não conseguiu, pois. Isso lhe fez pensar que voltara então à criancice. O que acontecia? Tentou novamente, agora com a mocetona lhe sorrindo, bem de perto. E não é que a velha tremura também voltara? Diante do embaraço, logo ele abriu do caderno e enfiou-se ali no meio fingindo que lia. Distanciou-se. O que acontecera? Decidiu-se por não ir às aulas naquela manhã. Não poderia voltar a casa, sua mãe de certo o castigaria por prevaricar com as obrigações escolares. Caminhou então, sem rumo, durante o tempo que julgou ser o bastante. Deveria estar longe, da escola e de casa. Estacou aí. O que faria? Olhou ao redor. Viu um café. Dirigiu-se até lá. Não tinha dinheiro algum, ficaria ali matando o tempo, escrevendo talvez. Adentrou o estabelecimento. Penumbra. Todos olharam. Ele se caminhou até uma mesa afastada, acanhado, e sentou-se de cadernos ao colo. Logo uma garçonete veio perguntando-lhe, com certa rabugem, o que seria. Não seria. Então ela disse que não se podia permanecer ali sem consumir.</span></strong></p>
<p class="MsoNormal"><strong><span style="font-size:10pt;font-family:Arial;">- Está certo. – ele disse levantando-se.</span></strong></p>
<p class="MsoNormal"><strong><span style="font-size:10pt;font-family:Arial;">- Não está certo. Trago-te um café por conta da casa. – disse ela, de rabugenta à cordial.</span></strong></p>
<p class="MsoNormal"><strong><span style="font-size:10pt;font-family:Arial;">- Está certo!</span></strong></p>
<p class="MsoNormal"><strong><span style="font-size:10pt;font-family:Arial;">- Sim, agora sim.</span></strong></p>
<p class="MsoNormal"><strong><span style="font-size:10pt;font-family:Arial;">Ele sentiu-se bem. Todos o olhavam de fumaças compulsivas às ventas, o braseiro dos cigarros conferindo certa iluminação ao ambiente. Todos mais velhos, alguns já grisalhos. Ele depositou os cadernos em cima da mesa então. Todos o olhavam. Ele retribuiu. Encarou cada um nos olhos. O que acontecera horas antes? O que havia de errado com a mocetona? E que belas formas arredondadas ela possuía! Inspiravam-lhe! Decidiu-se por escrever então. Já não o olhavam. Fumavam compulsivamente ainda. O café chegara também fumegante.</span></strong></p>
<p class="MsoNormal"><strong><span style="font-size:10pt;font-family:Arial;">- Aqui está! – disse a garçonete sorrindo por entre o bafo que subia da xícara</span></strong></p>
<p class="MsoNormal"><strong><span style="font-size:10pt;font-family:Arial;">- Agradecido!</span></strong></p>
<p class="MsoNormal"><strong><span style="font-size:10pt;font-family:Arial;">Seguiu-se um momento de silêncio. A garçonete ainda sorria com o café na bandeja, absorta. Pareceu dar-se por si então, daí depositou à mesa do rapaz um livro e em cima desse o café e saiu sem dizer nada. Então o rapaz rapidamente retirou a xícara de cima do livro, trouxe esse último à altura dos olhos e examinou-o atentamente, cheirou-o, tocou-o, cada parte dele, mas sem abri-lo. Não havia nada escrito na capa, nem na contra capa, ambas duras, de couro. Decidiu-se por abri-lo: nada escrito em seu interior também. Folheou-o: nada. Lembrou-se do café e apanhou a xícara trazendo-a até a boca e molhando o beiço superior superficialmente testou a temperatura. Já estava frio. Melhor assim. Nada muito quente o agradava. Tomou de um gole só o café. Lembrou-se das horas. Pensou em perguntar a alguém, mas logo avistou o grande relógio de pêndulo perto do balcão. Já era hora de partir. Apanhou os cadernos então, e o livro recém ganhado. Rumou à porta. Ninguém o encarou dessa vez. Procurou pela garçonete, porém não obteve sucesso. Não importava, ele planejava voltar ali em breve, daí então a agradeceria, a garçonete, pelo livro em branco.</span></strong></p>
<p class="MsoNormal"><strong><span style="font-size:10pt;font-family:Arial;"> </span></strong></p>
<p class="MsoNormal"><strong><span style="font-size:10pt;font-family:Arial;">Acordou na manhã seguinte com a mocetona aos pensamentos. A sensação era de tê-la possuído em seus sonhos. Vacilou um pouco antes de levantar-se. Dirigiu-se ao espelho como de costume. Aos bocejos penteou a cabeleira negra. Estranhou o silêncio. Não era o mesmo silêncio de todas as manhãs, o silêncio ao qual ele estava acostumado. Encaminhou-se ao quarto dos pais sem lavar o rosto. Não havia ninguém, a cama como que feita para impressionar, de tão arrumada. Não havia cheiro ou calor ou até mesmo resquício de algum dos dois, como que nunca ninguém houvesse pisado aquele quarto. O rapaz correu então ao quarto que era seu e trocou de calça rapidamente, de modo que saiu à rua ainda abotoando-a. Não sabia o que fazer. Não sabia, tampouco, por que estava à rua. Não sabia onde estavam os pais. Sentou-se à sarjeta então e pôs-se a prantear, mas também sem saber o motivo. Sentiu que ninguém poderia ouvi-lo. Gritou. Somente o vento brando fazia-se ouvinte. Gritou novamente, desta vez já sem nenhuma lágrima aos olhos. Levantou-se. Mirou o muro da casa onde findava a rua estreita em que morava. Viu surgir um vulto. Uma pessoa. Movia-se graciosamente. Aproximava-se. Não lhe parecia ser coisa concreta. Não sentiu medo, porém. Fechou os olhos. Abriu-os após respirar profundo. Era ela. Reconheceu aquela silhueta feminina de imediato. Fechou os olhos novamente. Sentiu o cheiro do que lhe pareceu café, erva-doce e suor. Abriu apenas um olho. Teve certeza. Sentiu o chão escapar-lhe aos pés. Fechou o olho que tinha aberto.</span></strong></p>
<p class="MsoNormal"><strong><span style="font-size:10pt;font-family:Arial;"> </span></strong></p>
<p class="MsoNormal"><strong><span style="font-size:10pt;font-family:Arial;">Acordou. Pensava na mocetona. A sensação era de tê-la possuído. Era noite. Lembrou do que ocorrera pela manhã. Deu-se conta de que não sabia onde estava. Percebeu-se desnudo. Alguém bocejava às suas costas. Era uma cama de casal. Amedrontou-se. O cheiro de café, erva-doce e suor impregnava o ambiente. Era ela. Virou-se então. Pela primeira vez encarou-a nos olhos e era como se já o tivesse feito milhares de vezes. Sentia a genitália sensível. Teria sido sua primeira noite com uma dama?</span></strong></p>
<p class="MsoNormal"><strong><span style="font-size:10pt;font-family:Arial;">- Sim. – a mocetona disse, como que lhe respondendo o pensamento.</span></strong></p>
<p class="MsoNormal"><strong><span style="font-size:10pt;font-family:Arial;">- Não. – o rapaz replicou.</span></strong></p>
<p class="MsoNormal"><strong><span style="font-size:10pt;font-family:Arial;">Ela levantou-se, desnuda, e dirigiu-se à cozinha, que não era separada, por parede, do quarto onde estava a cama de casal. Ele a seguiu. Como era bela! Sentiu o desejo de possuí-la por cima da mesa da cozinha e o fez. Ficou surdo. Estava cansado, como que tivesse passado a vida toda procurando por ela e de repente a mesma tivesse se feito visível. Ali estava ela, imponente, mas transparecendo ingenuidade e desconfiança a cada olhar que entremeava, disfarçando impetuosa, ao redor. Sentiu-se demasiadamente satisfeito. Deitou-se. Certificou-se de que o local lhe oferecia um bom apoio aos braços e ao rifle, que carregou como se estivesse introduzindo as balas em outro braço que lhe havia brotado. Ficou cego. Como faria mira? Desesperou-se. Sentiu que a deixaria escapar. Respirou profundo. Sentiu o cheiro da caça, do suor nervoso que lhe empapava os pêlos. Excitou-se. A visão já não lhe importava. Tranqüilizou-se. Puxou o gatilho. Perdeu os sentidos restantes. Recobrou-os após um longo tempo. Estivera em alguma espécie de limbo. A sensação era de ter vivido uma vida inteira. Não se lembrava, porém, de nada. A mocetona lhe acariciava o peito. Agora já lhe era sabido os nomes dela. Adormeceu então.</span></strong></p>
<p class="MsoNormal"><strong><span style="font-size:10pt;font-family:Arial;"> </span></strong></p>
<p class="MsoNormal"><strong><span style="font-size:10pt;font-family:Arial;">Puseram-se de pé como se não tivessem dormido. Ainda estavam nus, o rapaz e a mocetona, e assim permaneceram. Desjejuaram. Permaneceram sentados à mesa. O tempo como se estivesse parado. Ouviram alguém à porta. Vestiram-se, mas era como se permanecessem despidos. Atenderam ao chamado:</span></strong></p>
<p class="MsoNormal"><strong><span style="font-size:10pt;font-family:Arial;">- Bom dia! – a mulher do lado de fora desejou.</span></strong></p>
<p class="MsoNormal"><strong><span style="font-size:10pt;font-family:Arial;">Não houve resposta. A mocetona abriu a porta. O rapaz reconhecera a mulher que foi logo se encaminhando à cozinha.</span></strong></p>
<p class="MsoNormal"><strong><span style="font-size:10pt;font-family:Arial;">- Faço-lhe um café? – a mulher perguntou.</span></strong></p>
<p class="MsoNormal"><strong><span style="font-size:10pt;font-family:Arial;">- Fala comigo?</span></strong></p>
<p class="MsoNormal"><strong><span style="font-size:10pt;font-family:Arial;">- E com quem mais poderia?</span></strong></p>
<p class="MsoNormal"><strong><span style="font-size:10pt;font-family:Arial;">- Está certo&#8230; – o rapaz estranhou.</span></strong></p>
<p class="MsoNormal"><strong><span style="font-size:10pt;font-family:Arial;">- Sim, agora sim.</span></strong></p>
<p class="MsoNormal"><strong><span style="font-size:10pt;font-family:Arial;">Houve silêncio durante todo o período em que a garçonete preparava o café. Ele havia se sentado à mesa novamente. A mocetona lhe beijava as orelhas.</span></strong></p>
<p class="MsoNormal"><strong><span style="font-size:10pt;font-family:Arial;">- Aqui está! – disse a garçonete segurando uma xícara negra repousada sobre um pires branco.</span></strong></p>
<p class="MsoNormal"><strong><span style="font-size:10pt;font-family:Arial;">- Agradecido!</span></strong></p>
<p class="MsoNormal"><strong><span style="font-size:10pt;font-family:Arial;">Ela passou-lhe a xícara diretamente às mãos e saiu pela porta por onde havia entrado, a única na casa a propósito. O café estava quente. O rapaz deixou-o esfriando sobre a mesa e pôs-se a olhar a casa. Parecera-lhe maior. Eram dois cômodos afinal: o quarto de dormir emendado à cozinha e o banheiro. Olhou a cama de casal: por sobre ela repousavam o livro de capa dura de couro que havia ganhado da garçonete e uma pena. Voltou-se ao café, assoprou-o, pegou da xícara pela asa e levantou-se. Foi à cama. Assoprou novamente o café e deu um gole. Cuspiu. O lençol branco tingiu-se de vários pontos negro-azulados.</span></strong></p>
<p class="MsoNormal"><strong><span style="font-size:10pt;font-family:Arial;">- Escreva – disse-lhe a mocetona.</span></strong></p>
<p class="MsoNormal"><strong><span style="font-size:10pt;font-family:Arial;">- Sobre o que?</span></strong></p>
<p class="MsoNormal"><strong><span style="font-size:10pt;font-family:Arial;">- Escreva, apenas.</span></strong></p>
<p class="MsoNormal"><strong><span style="font-size:10pt;font-family:Arial;">- Está certo.</span></strong></p>
<p class="MsoNormal"><strong><span style="font-size:10pt;font-family:Arial;">- Não mais.</span></strong></p>
<p class="MsoNormal"><strong><span style="font-size:10pt;font-family:Arial;">- O que há?</span></strong></p>
<p class="MsoNormal"><strong><span style="font-size:10pt;font-family:Arial;">- O errado – ela respondeu deitando-se sobre a mesa.</span></strong></p>
<p class="MsoNormal"><strong><span style="font-size:10pt;font-family:Arial;">- Não entendo&#8230;</span></strong></p>
<p class="MsoNormal"><strong><span style="font-size:10pt;font-family:Arial;">- Escreva, não entenda. Beba a tinta.</span></strong></p>
<p class="MsoNormal"><strong><span style="font-size:10pt;font-family:Arial;">- Não posso&#8230;</span></strong></p>
<p class="MsoNormal"><strong><span style="font-size:10pt;font-family:Arial;">- Não diga!</span></strong></p>
<p class="MsoNormal"><strong><span style="font-size:10pt;font-family:Arial;">- Calo? – ele disse com a voz trêmula.</span></strong></p>
<p class="MsoNormal"><strong><span style="font-size:10pt;font-family:Arial;">- Escreva! – ela disse despindo-se.</span></strong></p>
<p class="MsoNormal"><strong><span style="font-size:10pt;font-family:Arial;">- Onde está a pena?</span></strong></p>
<p class="MsoNormal"><strong><span style="font-size:10pt;font-family:Arial;">- Você é um pássaro.</span></strong></p>
<p class="MsoNormal"><strong><span style="font-size:10pt;font-family:Arial;">- E o livro em branco?</span></strong></p>
<p class="MsoNormal"><strong><span style="font-size:10pt;font-family:Arial;">- Eu sou.</span></strong></p>
<p class="MsoNormal"><strong><span style="font-size:10pt;font-family:Arial;"> </span></strong></p>
<p class="MsoNormal"><strong><span style="font-size:10pt;font-family:Arial;"> </span></strong></p>
<p class="MsoNormal"><strong><span style="font-size:10pt;font-family:Arial;"> </span></strong></p>
<p class="MsoNormal"><strong><span style="font-size:10pt;font-family:Arial;"> </span></strong></p>
<p class="MsoNormal"><strong><span style="font-size:10pt;font-family:Arial;"> </span></strong></p>
<p class="MsoNormal"><strong><span style="font-size:10pt;font-family:Arial;"> </span></strong></p>
<p class="MsoNormal"><strong><span style="font-size:10pt;font-family:Arial;"> </span></strong></p>
<p class="MsoNormal"><strong><span style="font-size:10pt;font-family:Arial;"> </span></strong></p>
<p class="MsoNormal"><strong><span style="font-size:10pt;font-family:Arial;"> </span></strong></p>
<p class="MsoNormal"><strong></strong></p>
  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/yerblues.wordpress.com/77/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/yerblues.wordpress.com/77/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/yerblues.wordpress.com/77/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/yerblues.wordpress.com/77/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/yerblues.wordpress.com/77/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/yerblues.wordpress.com/77/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/yerblues.wordpress.com/77/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/yerblues.wordpress.com/77/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/yerblues.wordpress.com/77/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/yerblues.wordpress.com/77/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=yerblues.wordpress.com&blog=1309436&post=77&subd=yerblues&ref=&feed=1" /></div>]]></content:encoded>
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			<media:title type="html">mean mr. mustard</media:title>
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		<title>Versos Perdidos: &#8220;Planeamento&#8221;</title>
		<link>http://yerblues.wordpress.com/2008/12/13/versos-perdidos-planeamento/</link>
		<comments>http://yerblues.wordpress.com/2008/12/13/versos-perdidos-planeamento/#comments</comments>
		<pubDate>Sat, 13 Dec 2008 04:49:46 +0000</pubDate>
		<dc:creator>yerblues</dc:creator>
				<category><![CDATA[versos perdidos]]></category>

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		<description><![CDATA[Desato o ponto, desponto um fato:
Cismo. Engendro o que há de vir,
Vou sóbrio e sobre o cimo, pondero o que advirá.
Desabo por um momento, desato em resignação.
Dá-se o cisma. Valho-me do ensejo
Pelo desejo do ócio.
Não posso. Reergo-me indócil,
Recomeço o processo:
Reflito-me ao espelho. Meu reflexo
Desvencilha-se afoito.
Desacato-o opondo-me ao ato,
Encilho-o, cada raio luminoso que o compõe,
Num plexo. [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=yerblues.wordpress.com&blog=1309436&post=73&subd=yerblues&ref=&feed=1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><br /><p class="MsoNormal"><strong><span style="font-size:10pt;font-family:Arial;">Desato o ponto, desponto um fato:</span></strong></p>
<p class="MsoNormal"><strong><span style="font-size:10pt;font-family:Arial;">Cismo. Engendro o que há de vir,</span></strong></p>
<p class="MsoNormal"><strong><span style="font-size:10pt;font-family:Arial;">Vou sóbrio e sobre o cimo, pondero o que advirá.</span></strong></p>
<p class="MsoNormal"><strong><span style="font-size:10pt;font-family:Arial;">Desabo por um momento, desato em resignação.</span></strong></p>
<p class="MsoNormal"><strong><span style="font-size:10pt;font-family:Arial;">Dá-se o cisma. Valho-me do ensejo</span></strong></p>
<p class="MsoNormal"><strong><span style="font-size:10pt;font-family:Arial;">Pelo desejo do ócio.</span></strong></p>
<p class="MsoNormal"><strong><span style="font-size:10pt;font-family:Arial;">Não posso. Reergo-me indócil,</span></strong></p>
<p class="MsoNormal"><strong><span style="font-size:10pt;font-family:Arial;">Recomeço o processo:</span></strong></p>
<p class="MsoNormal"><strong><span style="font-size:10pt;font-family:Arial;">Reflito-me ao espelho. Meu reflexo</span></strong></p>
<p class="MsoNormal"><strong><span style="font-size:10pt;font-family:Arial;">Desvencilha-se afoito.</span></strong></p>
<p class="MsoNormal"><strong><span style="font-size:10pt;font-family:Arial;">Desacato-o opondo-me ao ato,</span></strong></p>
<p class="MsoNormal"><strong><span style="font-size:10pt;font-family:Arial;">Encilho-o, cada raio luminoso que o compõe,</span></strong></p>
<p class="MsoNormal"><strong><span style="font-size:10pt;font-family:Arial;">Num plexo. Encaro-o nos olhos.</span></strong></p>
<p class="MsoNormal"><strong><span style="font-size:10pt;font-family:Arial;">Ele revida perplexo. Não é meu.</span></strong></p>
<p class="MsoNormal"><strong><span style="font-size:10pt;font-family:Arial;">Deixo-o então.</span></strong></p>
<p class="MsoNormal"><strong><span style="font-size:10pt;font-family:Arial;">Aflito, emparelho-me ao espelho:</span></strong></p>
<p class="MsoNormal"><strong><span style="font-size:10pt;font-family:Arial;">Reverbero-me em transparência.</span></strong></p>
<p class="MsoNormal"><strong><span style="font-size:10pt;font-family:Arial;">Desponto na senda agora,</span></strong></p>
<p class="MsoNormal"><strong><span style="font-size:10pt;font-family:Arial;">Vôo sóbrio, compondo-a.</span></strong></p>
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