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Outro Conto

05Dez08

- Não! Por deus, não! – ela dizia. As mãos vermelhas do sangue dele.

Logo à frente, a viatura, que há pouco desenvolvia uma perseguição, encontrava-se impedindo a pista e, de rodas para cima, o carro do fugitivo vazava combustível, fazendo-a exasperar-se. Na via contrária, o tráfego fluía ímpar.

- Olhe para mim! Você não pode me deixar! Não dessa maneira. Escute-me: você vai ficar bem, prometo-lhe.

Ele a ouvia, porém sem responder-lhe, vertendo-se em sangue. Os policiais se aproximavam.

- Rápido com isso! – ela berrava, sufocando com a saliva espessa e as lágrimas – Ajudem-me! Ele foi baleado…

- Há uma ambulância a caminho, moça…

Era um prédio antigo, salmão e descascado. Um hotel dos mais baratos. Vantagem é que ficava no centro, e o senhor do apartamento duzentos e vinte e dois fazia questão disso.

Anoitecia e ele abotoava o último botão do paletó pra alcançar as escadas e depois a rua, falseando em sua bengala de marfim, como sempre fazia. Era um fim de tarde daqueles de temperatura amena e poucas nuvens ao céu e o senhor o apreciava fechando os olhos vez em quando: gostava desses e sentia-se reciprocamente retribuído quando o vento brando acariciava-lhe os cabelos alvos e ralos, ao contrário de quando o dia findava quente e sem nuvens; esses fins de tarde pareciam odiá-lo. Pelos chuvosos, há muito ele não caminhava, mas se lembrava de quando adolescente. Caminhar pelo anoitecer, todos os dias, punha-o nostálgico. Lembrava do filho que não via há tempos. Desviava as memórias. Sentia, dos canteiros, os doces aromas das raras flores e a garoa dos aspersores. O bar dos cafés diários já se fazia visível e o senhor sentia um vigor juvenil aflorando-lhe aos membros. Resolveu ousar um bocado: o fim de tarde se fazia propício a ousadias. Com os olhos semicerrados desapoiou-se da bengala e andou como se não precisasse dela. Sentiu um tremor leve e o ignorou. A calçada estava molhada dos aspersores e ele percebera, porém também ignorou. Desmoronou. Lá adiante se viam nuvens aproximando-se rápidas e que mais tarde se precipitariam em chuva.

- Penso em meu pai – ele disse, quebrando o silêncio.

- Você nunca me disse muito sobre ele.

- Prefiro assim.

- Não me agrada muito.

- O que?

- Essa lacuna. Não sei das tuas raízes. Isso me confunde quando eu tento estabelecer parâmetros.

- Você é complicada demais.

- Você.

- Entenda-me.

- É só o que eu faço.

- Ele morreu.

Ela engoliu em seco.

Chovia. O senhor do duzentos e vinte e dois corria pelos descampados da juventude, nu. Algo lhe adentrava as veias do braço causando incômodo. Ele acordou então. Passou os olhos ao redor levantando somente o pescoço. Chovia. Gotejavam, o soro do companheiro de quarto e os pingos lá fora, sincronizados. Uma camisola azul e aberta na parte de trás o vestia e o vento que entrava reprimido pela fenda mínima da janela quase totalmente fechada refrescava as partes internas de suas pernas. A esquerda pendia engessada de um aparato preso ao teto. Alguém adentrava o quarto.

- Há algum parente próximo com qual poderíamos entrar em contato? – perguntou a enfermeira, sem delongas.

- Não. Bem, sim. Mas é melhor não.

- Sim ou não?

- Sim e não. – o senhor respondeu coçando os olhos – O que foi que aconteceu?

- O senhor escorregou, seus ossos estão fracos… Quem é a pessoa?

- Meu filho.

- Posso contatá-lo?

- Na verdade não, mas faça.

- Está certo. – A enfermeira disse acendendo um cigarro.

Os dois moravam juntos há algum tempo. Não eram de muita conversa. Não precisavam. Ela saía cedo, voltava tarde. Ele não saía. Fazia de casa o trabalho. Acordava primeiro e a acordava. Ficava a olhá-la acordando, lambia-a nos olhos, beijava-a na boca, sorriam. Ela se levantava e se banhava. Ele preparava o café, servia-a, despachava-a e voltava a dormir depois. Acordava de novo, tarde, preparava o almoço, cuidava da casa e do trabalho de revisor, se porventura tivesse algum. Ela chegava. Ele não falava. Não falava, mas vinha bem falante nesses últimos tempos e encarquilhando as sobrancelhas quando o fazia. Falava do jornal, do trabalho dela, do barulho dos carros à tarde, da violeta sequiosa na sacada. Ela estranhava. Ele falava. Daí então silenciava, como que se dando conta do falatório, estranho. Voltava a falar, quebrava o silêncio num tom mais baixo e sério. Aí falava do pai. Ela estranhava: do tempo que estavam juntos ele pouco falara do pai.

- Como foi que se deu a morte? – ela perguntou.

- Como se dá.

- Sou intrusiva quando pergunto?

- Imagina.

- Não?

- Claro que não.

- Por que você não me diz?

- Prefiro assim.

- Você nunca diz.

- Não.

- Prefiro o sim. – ela disse; as mãos soltando o cabelo preso de trabalhar, o telefone tocando.

- Você atende?

- Não.

- Insolente! – ele a chamou, rindo e levantando-se para alcançar o telefone. – Pois não? – ele atendeu – Como é?

Ela o via enrubescer, apertar os olhos, menear o pescoço, despentear os cabelos. Preocupava-se, não se agüentava. Ele desligou. Ela perguntou, aflita:

- O que se passa?

- Leva-me ao hospital.

- Por quê?

- Só me leva.

Ele corria de mãos dadas com o pai, atrás da pipa. Choramingava a perda. Sempre atribuíra valores demasiados sentimentais às coisas sem valor. Inda hoje guardava as conchas da primeira ida à praia. A pipa se ia. O pai, cada vez mais diminuía o ritmo. Ele, aumentava o pranto. Pararam finalmente: ele de muito pranto, o pai de muito abraço, fazendo-lhe cócegas até arrancar-lhe um sorriso. Ele chorava mudo no banco do carona, o pai também, no hospital.

Ela dirigia apressada, olhando, vez em quando, pra ele. Não se atrevia a perguntar. Sabia que se o fizesse ele responderia, mas sabia também que não se satisfaria com a resposta. Iam-se. Ela, cada vez mais aumentava a preocupação, ele, aumentava o pranto. Ela se resolveu por perguntar finalmente, no entanto interrompeu-se antes de terminar, quando de um carro que seguido de uma viatura policial passaram zunindo por eles, aí, ao invés de terminar a pergunta, maldisse uns impropérios. Ele se riu dela. Ela respirou profundo, aliviada, rindo também. Deram-se conta de que a viatura lá na frente parara e pararam também, observando, como que temessem algo. O motorista do outro carro, que havia capotado, saíra do mesmo, ileso, de pistola na mão e ameaçara os polícias. Esses, por suas vezes, desceram da viatura rendidos. O bandido correra então. Vinha correndo na direção dos dois, que se exasperaram: ela de mordidas aos beiços, ele enxugando as lágrimas dos olhos. Os polícias dispararam contra o bandido, sem êxito, porém não sem um alvo atingido. Ele, de dentro do carro, desfalecera.

- Não! Por deus, não! – ela dizia. As mãos vermelhas do sangue dele.


Novas Cores.

20Set08

Vem o impulso. Procuro o que fazer pra não ter que decidir parado. Decido: eu vou. Apronto-me de um pulo por ter me atrasado enquanto indeciso. Saio à rua e me vêm os ventos do inesperado à cara. Penso em mim. Desconheço-me. Gosto disso. Gosto de perceber-me outro. Gosto das novas cores e da falta de cor, do ônibus ruidoso e do atraso.

Atraso.

Hoje entendo que existir é atemporal.

A existência é baseada em escolhas.

Não a vi. A saudade aperta. Há alguns minutos eu maldiria a rotina, como de fato o fiz e refaço agora, corrigindo-me: prefiro adequar-me. Ela me ensinou isso. A saudade aperta a cada pensamento, nuvem, carro, abrir de sinaleiro. Vejo-a em tudo, em todos. Havia combinado de encontrar-me com ela no ônibus e atrasei-me. Mulher da minha vida…

A viagem é imperceptível. Alcanço a rua novamente.

Hoje entendo que alcançar é existir.

Baseio-me em meus alcances, e assim chego. Atrasado, porém.

Encontro-me com os meus. Meus novos. Os que pensei jamais poder chamar de meus. O orgulho nos trai.

Passo a tarde; passo-a como havia planejado antes de indispor-me.

Penso nos meus. Meus novos. Os que agora posso chamar de amigos e que jamais pensei poder fazê-lo. Rio-me. Como pudera ser tão frio? Faz frio. Sinto-o mais intenso do que ele de fato é. Percebo-me outro. Gosto das novas cores.

Espero o ônibus de volta, ladeado pelos meus novos amigos. Vem o impulso. Procuro andar pra não ter que decidir parado. Despeço-me. Decido: eu vou.

Tenho pressa, mas desconheço os motivos. Penso nela. Penso neles. Penso nas mudanças e na forma como elas se dão. Sinto-me bem. Sinto-me.

Encontro-me com os meus. Meus antigos. Os que pensei que já não poderia mais chama-los de meus. O orgulho nos trai.

Começo a noite; começo-a bem, falando de minhas origens, que às vezes acabam se perdendo em face de tantas deviações. Pergunto-me quem sou. Quem fui.

Ouço dizerem que pensaram em mim. Sou querido. Não lido muito bem com a querência. Subestimo-me.

Passam-se as horas e eu as passo com os meus. Os ainda meus amigos. Minha ligação comigo mesmo. Entendo os impulsos. Sinto-me satisfeito por tê-los obedecido. Sinto-me. Sinto muito por não poder ficar mais, pois já é dada a hora de partir e me despeço. Penso que só os verei novamente, os meus antigos amigos, em ocasião igualmente aleatória. Penso em pedir que não me esqueçam. Só penso, não peço e me despeço novamente.

Saio à rua e me vêm os ventos do inesperado, decifrados, à cara. Rio-me.

Ando pela noite e sou cada nuvem, cada carro, cada abrir de sinaleiro. Respiro, ou melhor, ofego à pressa e agora sei dos motivos: já é tarde. Penso nela, preciso dela. É bárbara a necessidade de tê-la comigo a todo instante, a mulher da minha vida. Penso no passado próximo, nos mais próximos, nos próximos instantes e na iminência da distância e me pego absorto pra voltar às ruas de súbito e ao encontro de mais um dos antigos. Antigos amigos. Estacamos então: fazia tanto tempo que não nos víamos. Abraçamo-nos. A conversa fluiu como quando nos víamos todos os dias, mais espontânea até, eu diria. Desviamos nossas rotas para que o encontro durasse mais. Os ventos riem. É impossível decifra-los. A pretensão é traiçoeira. Despedimo-nos então, à hora e à esquina de tomarmos, cada um, um caminho.

Vou-me. Penso na vida. Vivo.


Em contra.

24Jul08

Ela tinha vinte. Ele, vinte a mais que ela.

Ele, como supunha a idade, era como pai dela. Ela, apesar da idade, como mãe dele.

Havia sexo. Era sempre bom. Ele era estéril. Ela aficionada por crianças. Já haviam pensado em adoção. As coisas iam mal.

Ela acordava cedo, sempre. Passava o café, torrava as torradas e levava na cama. Ele agradecia com um beijo, às vezes com mais. Ela então se vestia, e saía. Ele voltava a dormir. Nunca acordava cedo, só quando precisava.

Ela voltava, sempre sem o emprego que havia ido procurar. Ele, nesse ínterim, havia acordado e lavado a louça da janta do dia anterior e fumado três cigarros, um em cada cômodo do apartamento. Ela começava o almoço lhe contando de como tudo é só questão de ponto de vista, ele terminava, lhe dizendo que não. Comiam se olhando, silentes. Fartavam-se.

Havia sexo. Era sempre bom. Depois se banhavam e passavam o dia na cama, de planos e cigarros. Ela adormecia. Ele ia pra sala. Dormia com o televisor. Chegava à cama sem saber como. Dormia com ela.

- Que é que você ta fazendo? – perguntou ela, engrolando a voz, de susto e sono.

- Servindo-te o café na cama, oras…

- Mas…

- É, fica na cama hoje. Descanse…

- Descansar do que?

- Sei lá, tire o dia pra você. Faça nada. Tudo…

- Sem você?

- Sem mim.

- Mas…

- Espera-me de almoço pronto e calcinha, que eu volto com fome.

- Bobo!

- Já me vou, então. Até logo, amo você. – ele disse, beijando-a.

- Amo você também. Sorte na empreitada…

Ela. Tinha vinte minutos que havia começado a chorar. Afogava-se com os soluços e toda ela vertida em lágrimas. O telejornal noticiava um ônibus caído de um viaduto.


Encontro.

03Jul08

Ninguém sabia ao certo o nome dele. Arriscavam pelo canto da boca. O que arriscavam haviam ouvido de outros passageiros que sabiam ou o achavam e que desciam do ônibus e agradeciam-no. E ele por sua vez, usava o crachá ás avessas ou não usava. Não gostava de pessoas, dizia. Dizia pouco, mas quando o fazia era pra justificar a marra. A amargura não lhe transparecia ao rosto terno. Ele o escondia por trás da barba não muito passada do ponto por exigência do patrão. As pálpebras lhe caiam aos olhos e como fator atenuante da expressão pesada que amarrava todos os dias, antes de sair de casa pra trabalhar. Não gostava de pessoas, pensava; daí franzia o cenho e os beiços. Estava naquela por falta de opção. E tédio era coisa que lhe matava, então engolia as pessoas, que a propósito achavam-lhe a cara demasiada engraçada.

- Bom dia! – diziam os passageiros. Ele escarnecia, e lhe entendiam um sorriso. Ele não gostava, quase morria de engasgado: vinham-lhe disparates mil à boca. Não dizia. Não gostava de pessoas, não lhes dizia. Nem disparates, nem bom dia.

E assim ia. Dava-se bem com o ônibus. Volante e câmbio e pedais eram como membros seus. Retrovisores, pares extras de olhos. Atiravam-se contra as ruas e àqueles que transitavam por elas. Não paravam a atrasados.

E assim ia. Veloz. Os passageiros se segurando, como marionetes penduradas, não reclamavam. E então, ele freava, bruscamente, e todos os passageiros iam para frente, como uma massa mole e malcheirosa: não reclamavam. Não se ouvia um único muxoxo de desaprovação. Ele entrava nas curvas sem diminuir a velocidade, ziguezagueava, furava sinais vermelhos e não obtinha sequer um suspiro de desagrado. Deprimia-se.

E assim ia, sem muita vontade. Mas logo se estimulava, pensando que não lhe reclamavam por medo. Pensava também que poderia ser por que lhe gostavam incondicionalmente. Suprimia esse último pensamento. Não queria ser gostado. Fazia de tudo para não o ser.

Chegava a casa, exausto de frustração. Não tomava banho. Não comia. Dormia pouco e às vezes. Pensava nisso como fator de repulsão. Chupava limão frente ao espelho e memorizava as expressões para usá-las mais tarde.

- Bom dia! – diziam os passageiros. Ele ignorava e lhe entendiam distraído. Sorriam a ele. A cólera quase lhe saindo às ventas como vômito.

Já não agüentava. Não suportaria nem mais um bom dia, ou tarde, ou noite sequer. O ofício o satisfaria se ao menos correspondessem com suas injurias. Pensava em sair. Mas durante anos, fora a única chance que haviam lhe dado. Não era qualificado. Não pensava em se adequar. Morar na rua, talvez. Pensava no irmão alcoólatra que há muito era andarilho. Ainda assim teria que lidar com pessoas…

Ele dirigia absorto. Passavam (ele, o ônibus e os passageiros) por cima de um viaduto. Afrouxara o cenho. Ele sorria. Há muito não o fazia, não sabia nem há quanto. A mureta lhe parecia bem frágil. Seria uma queda de uns cinco ou seis metros. Ele gargalhava. Chovia fino.


Desencontro.

24Mai08

Chegou de tropeços e chapéu largo, caindo-lhe aos olhos. A camisa de flanela empapada de suor e a sacola de uma alça rasgada com o conteúdo tendendo ao chão. Todos o olhavam.

A primeira abordada o fez invisível. A segunda, nem tanto:

- Qual é o ônibus que eu tomo pra chegar aqui? – e mostrou a foto.

- É o próximo. Ta atrasado. Já deveria ter encostado… – respondeu a senhora, de quase indiferente pra cortês, desprezando o hálito de vodka barata do entrevistador, explicando onde ele deveria descer.

- Agradecido! – e fez uma reverência desequilibrada de pernas entrelaçadas, o que provocou o riso geral.

Recompondo-se, sacou da sacola o litro de vodka, já pelo fim, e deu um trago. Sorriu amarelo.

Há quarteirões dali, um outro causava balbúrdia, dessa vez a garrafa era de rum:

- Eu só preciso sair daqui, me tira daqui! – dizia entre soluços ao motorista do ônibus e arraigado à porta de entrada – Roubaram-me os cobres… – dizia ainda, com certa classe e pesar e voz mole.

Era um homem forte, troncudo, apesar de pequeno e corcunda; e firme, apesar de ébrio, o que impediu que fossem bem sucedidos no bota-fora o motorista e no embarque os demais passageiros pagantes, que ralhavam em fila.

Fez-se silêncio. Ouviam-se apenas os ofegos, do motorista e do bêbado. De reluta à piedade, acordou-se uma carona enfim.

Acomodaram-se então os passageiros, o não pagante e os pagantes, e esses últimos em burburinhos (que apesar de indistintos, eram perceptivelmente sórdidos).

- É esse aí! – disse a senhora apontando pro ônibus que despontava lá embaixo àquele da garrafa de vodka, que no momento ensaiava um cochilo.

- Ah… Certo! – respondeu impreciso do cochilo que acabara de acordar, e levantando-se, arrumou o chapéu, trançou as pernas, acomodou a sacola embaixo do braço esquerdo e dirigiu-se ao fim da fila, seus comensais revelando certa espécie de apreço agora.

Embarcou. O motorista o olhava notadamente aflito de prévias experiências traumáticas. Pagou. O motorista sorriu de alívio. Assentou, ao lado do da garrafa de rum. O motorista, de mãos ao rosto, hesitou, parecendo querer abandonar o ônibus. Passaram-se alguns minutos, e então finalmente o ônibus partiu.

Viam-se pelas janelas, os borrões de pressa e céus de chuva por chover.

- Ei chofer, vai devagar – disse em voz alta e em tom de conselho, o da garrafa de rum e emendou em voz baixa, dirigindo-se ao da garrafa de vodka: que é que você ta bebendo aí?

- Nada demais. E você?

- Rum. Coisa fina. Custaram-me os olhos. Por que é que você ta nessa?

- Não me lembro.

- Ah… Você não é muito de papo né?

- Desculpe.

- Desce onde?

- Aqui… – e mostrou a foto – e você?

- Qualquer lugar… Lugar bonito, o da foto. Não conheço…

Silenciaram. Beberam. Quebraram o silêncio então:

- Acho que já deu pra mim, desço aqui – disse o do rum ao da vodka e em voz alta disse ao motorista: deus lhe pague, chofer! Eu fico por aqui – e voltou-se novamente para o companheiro de assento: posso ficar com a foto?

- Acho que sim… Eu desço logo também – e apertou a mão do outro, dando a foto logo em seguida.

Olharam-se uma última vez. O do rum desceu. O ônibus continuou. Ainda se viam os borrões, mas agora eram de chuva.


Escrevo das flores,

Pra falar das borboletas,

Fragrâncias das mais inebriantes,

Flagrantes da cópula incessante,

Que é a natureza.

Falo de borboleta,

Dobradiça das portas que tu quiser abrir,

Entrar e sair,

Cardume,

Que num abre e fecha incessante,

Cruzam o céu, espelho do mar que é,

Pra te deixar adentrá-lo.

Escrevo e falo,

Das flores, da cópula,

Do entra e sai das borboletas,

Fragrância de cópula,

Escrevo á falo, que a nudez é,

Vestimenta da natureza,

E o minimalismo é borboleta,

Dobradiça da porta que tu quer abrir.

 


Menina moça,

Deprime em temporal, garoa,

Debaixo do guarda-chuva, pisa a poça,

Lagrima é só mais uma gota,

E a dona ali, recolhe a roupa do varal.

Ao invés de peito e cara, põe a mão,

É fria a prova, e ela insiste,

Da chuva o guarda, posto em riste,

Choraminga o pé molhado,

De cima da poça, espelho quebrado.

Menina moça,

Deprime em pranto soluçado, o desgosto,

Não lhe agrada a garoa, que vem fechando em temporal,

E a dona ali, assunta o choro,

Que mescla ao coro que é vento assobiando,

Prenuncio de pé d’água, o horizonte calçando-o.

 

E chega impetuoso, pra fazer par ao pé da moça;

Com vento, que leva consigo o guarda-chuva,

Sopro de trombeta de anjo,

E o farfalhar das folhas, o resto da falange,

Que vem trôpega, num estouro,

Rebentar em temporal garoa.

Menina moça, qual o guarda-chuva voa,

Percebe-se ensopada, percebe-se tempestade,

E por entre os seios, que transparecem ao vestido,

Paridade.

Menina moça,

Exprime em arco-íris, transa,

Do pranto fez gozo,

Uma gota mais,

E a dona ali gargalha nostálgica,

Voltam as vestes aos respectivos varais.


Quando esse montante de idéias começa a fervilhar, tudo o que vejo, sinto e penso, vai se somando ao tal e estalando em poemas, poesias, contos, versos, dentro da minha cabeça. Mas só dentro da minha cabeça. E são muitas coisas, que fogem ás rédeas e ao papel e caneta. Até isso (o fato de eu não poder rebentá-las) se torna poesia. Poesia interna.

É um tanto quanto frustrante; daí vem a preguiça, igualmente urgente á vontade que tenho de exteriorizar toda essa poesia interna.

É a primeira vez que tento exteriorizar toda essa poesia interna. E é também a primeira vez que decorro sobre.

Após algum tempo escrevendo freneticamente, o cansaço é inevitável. A vontade de exteriorização vai se esgotando, vários pensamentos escapam á pena que já faz as vezes de palito de dente. Talvez o cansaço provenha do fato d’eu escrever tudo de uma vez só, sem pausa ou anotações para continuar mais tarde. Talvez, não. É justamente por isso que me canso.

Então sou tomado por completo pela vontade de pontilhar umas reticências ou até mesmo um ponto final, porém, em contraponto, pisca fraquejando uma vontade de passar o resto dos meus dias escrevendo, que logo é soterrada por uma tonelada de poesias internas e novamente o cansaço…

São muitas. E eu acabo perdendo o desfecho que havia pensado pra acabar logo com o suplício no meio delas.

E após um longo tempo vacilando, rabiscando ás margens, tentando lembrar do desfecho, afogando-me em minhas incessantes poesias internas, desisto.

Desisto de tentar lembrar o desfecho, desisto de continuar escrevendo, desisto de tentar exteriorizar minhas poesias internas. Elas são inerentemente internas, oras. Ocorre-me que exteriorizá-las equivale a escrever um best-seller.

Minha nossa! Quando eu disse há alguns parágrafos que um dia me tornaria escritor de best-sellers, não pensei que o faria tão rapidamente. Só preciso de um desfecho embasbacante agora.

(Pausa de meia hora para palitar os dentes com a caneta.)


Desprezo escritores de best-sellers. Leio-os, embasbaco-me diante de tamanha genialidade investida em grandes roteiros, com seus “grandes desfechos” imprevisíveis. Até gosto, gosto bastante. Mas desprezo-os. São como bobos da corte, um pouco mais inteligentes. Ou um pouco menos.

É de se convir que é um tanto desprezível ser escritor para os outros e só para os outros, e lucrar com isso.

Ainda serei um desses escritores de best-sellers. Ser desprezível que me acho, serei também desprezível aos olhos de quem eu considero desprezível: tipos assim como eu, que desprezam escritores de best-sellers (não me desprezo. Isso é apenas lirismo barato, masturbação! Queria poder fazer com que as palavras lidas fossem também sonorizadas, para que os leitores pudessem ouvir a gargalhada desprezível que acabei de gargalhar. Queria poder também ter duas vidas, ser dois seres, e de uma terceira existência, supervisionar as outras duas. E cada uma delas, exceto o supervisor, seria exatamente o oposto uma da outra; e o supervisor… Bem, o supervisor seria o supervisor, e só. Assim, enquanto eu estivesse á cadeira-de-área, contando histórias aos netos, com a minha mulher ao pescoço dando-me á boca alguns de seus deliciosos quitutes, estaria também ás sarjetas, fumando pontas de cigarro pisoteadas e bebendo de um gole só algum uísque barato roubado de uma loja de conveniência, escondido em um saco de pão, dividindo o jantar conseguido em latas, de lixo com justamente um vira-lata, inválido; sem saber se acordarei no dia seguinte. É muito atraente essa segunda vida, esse negócio de viver a noite como se fosse a última… Mas é tão quente e reconfortante e terna a idéia de poder envelhecer ao lado da pessoa que você escolheu, com filhos, netos e quitutes deliciosos. Preciso de duas vidas urgentemente…).


Enfim, sento-me á escrivaninha e desabo em cima do papel toda a desorganização e violência das idéias que já faziam buracos em minha pele e saiam pelas minhas ventas buscando a luz, como vermes sendo expurgados após uma boa colherada de óleo de rícino goela abaixo.

È irônico, não? Irônico tal qual café descafeinado. Como pode ser tão semelhante defecar e confessar-se ao papel… Eu diria que o que os diferencia é que um ou o outro, dependendo do momento, pode ser mais elegante e literário. Acho que defecar é mais literário e elegante.

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Escrever (confessar-se ao papel), ao meu ver é mais primal e instintivo que defecar. É pena que os leitores, ávidos de prazer masturbatório e grandes tramas e desfechos, fechem os olhos á confissões ao papel e ao fato de serem escritores em potencial. Digo isso, pois sou também um desses ávidos leitores. Quando rebenta o último ponto final e eu largo a pena pra ler o que acabei de escrever, passo de escritor para “leitor ávido de prazer masturbatório e grandes tramas e desfechos”. Com a diferença de que escrevo pra mim, e conheço a minhas virgulas, reticências e os meus pontos mais sensíveis. Masturbação!